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Artigos opinativos sobre os protestos em São Paulo estão a perder de vista nessa semana. Parcialidade idem, que defendem a manifestação pacífica, a arruaça, a contenção pela polícia e a ação truculenta da mesma. Veículos (ou seria vínculos?) da imprensa optaram pela indiferença ou rotular as ações como vandalismo. Críticas ao evento Copa das Confederações vieram na mesma toada, denunciando o dinheiro de todos nós investido em um espetáculo restrito, e entenda-se restrito um lugar que peca com acesso a deficientes e número de banheiros, mas com latinhas a exorbitantes R$12.

Nas redes sociais, brotam murais com ’Você que protesta usa o transporte público?’e ‘Não percebe que só prejudica os pobres trabalhadores?’. A complacência com os desmandos do Estado é a melhor justificativa para a continuidade de medidas para benefício próprio.

Por R$0,20 a mais chega-se um enriquecimento absurdo por dia. Estamos falando da cidade com pelo menos 8 milhões de pessoas dependendo dos circulares, precários e sucateados diga-se de passagem. A mais poderosa mídia brasileira passou de informativa a um dos alvos dos manifestantes, com declarações infelizes de âncoras e colunistas, este de renome.  Mas está cada vez mais claro que o ligeiro aumento foi o estopim, e não a grande causadora das manifestações.

Ações de vândalos isolados devem sim ser contidas com austeridades, nada justifica depredar  lojas, carros e queima de lixo. O prejuízo são dos outros, diria Sartré ao ver tal cena. No entanto, generalizar o comportamento para toda a massa é um equívoco. Se a arte de manipular imagens foi um dom criado na Rússia Stalinista, fica esquisito ver PMs descendo o cassetete, mandando sprays de pimenta, bombas de gás e balas de borracha contra quem só porta cartazes e agride com a voz. ‘Liberté, Egalité, Fraternité e Vinagré’, palavras de um colega publicitário Caio Brugioni Gonçalves.

Panfletagens e hackeamentos poderiam ser um alerta aos órgãos públicos, mas não deixa de ser invasão de privacidade, quando é ausente a ética e cidadania, ainda que sejam desconhecidas por boa parte dos políticos, eleitos ou oposicionistas. Todo esse fato social e sua repercussão pelo mundo afora serve para notar que não existe o meio-termo ao exigir o direito de votante: ou é a favor dos que protestam ou dos que (tentam) manter a ordem. A falta de diálogo, tão defendido por Sócrates e Voltaire, até ocorre dos dois lados, só lembrando que a coragem é maior de quem porta arma de fogo.

Tudo isso em plena semana de abertura da Copa das Confederações, inflada muito mais em razão do Brasil ser ‘anfitrião-sorrisão’ do que a importância competitiva, na qual a seleção é tricampeã. A troco do quê mesmo? O retorno ‘merecido’ aos cofres do BNDES. Se foi dessa instituição que saiu grande parte dos bilhões pagos aos novos estádios, tem que receber de volta e de preferências a gordos juros. Viva hot-dogs a R$8!

A vaia à presidente Dilma conseguiu se destacar frente aos protestos em volta do Mané Garrincha, e há indícios de ações similares por todas as sedes (a exceção de Salvador e Fortaleza talvez). É justa sim e está na constituição de direito do brasileiro mostrar insatisfação com o voto jogado fora, a partir do momento em que o ingresso foi usado o expectador tem a total liberdade (não libertinagem) dentro do espaço. Educação e Respeito monsieur Blatter? E essa montanha de ‘padrão Fifa’ tacada goela abaixo no regulamento? Você se lembra do Ilmo João Havelange?

Bonito ver obras gerando empregos em Cuiabá, Manaus e Natal, será que pensaram em como aproveitar os estádios pós-copa? Não se trata de preconceito regionalista, e sim uma realidade: É possível recuperar os gastos com outros atrativos? Esperamos que sim. A África do Sul arca com problemas financeiros até hoje por precipitações desse porte, e como não há nada ruim que não possa piorar lá vai: grande parte do dinheiro investido no país de Mandela veio do setor privado. Conseguem calcular o provável rombo?

A bateria de perguntas feitas tem uma resposta mais simples que o controle da inflação. O povo está se cansando da mesmice administrativa em nosso país. E, por graças, estão batendo de frente usando argumentos ao invés de coquetéis molotov. A regra do governante incomodado com a população pensante é antiga, e os indignados mostrando a cara é uma boa prerrogativa para o slogan ‘O Gigante Acordou’.

Os movimentos de ocupações anônimas poderão trazer resultados positivos, precisava ser mais organizado e divulgado (o menosprezo da greve dos professores e ações indígenas são exemplos), mas não se deve comparar com a Primavera Árabe de 2011: primeiro porque estamos em fim de outono, e também a onda no continente africano foi uma exigência do povo para voltar ao regime político-religioso. O Brasil é um estado laico por direito desde a República de Deodoro, que adeptos de Feliciano e Malafaia tentando mudar há algum tempo.

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Do mestre Luis Fernando Veríssimo:

Eu tenho o sono muito  leve, e numa noite dessas notei que havia alguém andando sorrateiramente  no quintal de casa. 

Levantei em silêncio  e fiquei acompanhando os leves ruidos que vinham lade fora, até ver uma  silhueta passando pela janela do banheiro. Como minha casa era muito  segura, com grades nas janelas e trancas internas nas portas, não fiquei  muito preocupado mas era claro que eu não ia deixar um ladrão ali,  espiando tranquilamente.
Liguei baixinho para  a polícia informei a situação e o meu endereço.
Perguntaram- me se o  ladrão estava armado ou se já estava no interior da casa. Esclareci que  não e disseram-me que não havia nenhuma viatura por perto para ajudar, mas  que iriam mandar alguém assim que fosse possível.
Um minuto depois liguei  de novo e disse com a voz calma:
– Oi, eu liguei há pouco porque tinha  alguém no meu quintal. Não precisa mais ter pressa. Eu já matei o ladrão  com um tiro da escopeta calibre 12, que tenho guardada em casa para estas  situações. O tiro fez um estrago danado no cara!
Passados menos de  três minutos, estavam na minha rua cinco carros da polícia, um  helicóptero, uma unidade do resgate , uma equipe de TV e a turma dos  direitos humanos, que não perderiam isso por nada neste  mundo.
Eles prenderam o  ladrão em flagrante, que ficava olhando tudo com cara de assombrado.  Talvez ele estivesse pensando que aquela era a casa do Comandante da  Polícia.
No  meio do tumulto, um tenente se aproximou de mim e  disse:
–  Pensei que tivesse dito que tinha matado o  ladrão.
Eu  respondi:
–  Pensei que tivesse dito que não havia ninguém  disponível. ”