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O Bayern de Munique, time pelo qual torço na Europa, sagrou-se campeão pela 25ª vez hoje (6/4), há 6 rodadas do fim da Bundesliga e está no aguarde de Freiburg, Wolfsburg ou Stuttgart na Copa da Alemanha, torneio eliminatório similar à Copa do Brasil. Na próxima semana, o time tenta avançar na Champions League no jogo de volta contra a Juventus (ITA) em Turim com a vantagem de 2 a 0.

Nos torneios locais os bávaros são supremos, com 25 e 15 títulos respectivamente, mas é primordial que alcem o 5º título do torneio continental na temporada 2012-2013, para acabar com a ‘síndrome de Vasco’: amargaram 5 vices sendo 3 em décadas recentes (1999, 2010, 2012). o técnico Jupp Heynckes, detentor de vários recordes na Bundesliga  e títulos com outros times europeus, se aposentará ao final da temporada para dar lugar a Pep Guardiola.

Pontos fortes o time tem de sobra pra levar o caneco em Wembley:

– O goleiro Manuel Neuer é o provável herdeiro de Oliver Kahn debaixo das traves com ótimas atuações. Seu problema é  na saída com os pés;

– Na defesa, o experiente Philipp Lahm se arrisca no ataque sem comprometer, os grandalhões Van Buyten e Dante interceptam (quase) tudo e Alaba consegue alguns petardos certeiros. Não é à toa que foram vazados somente 13 vezes em 28 jogos no alemão.

– No meio, o espanhol Martinez amarra o jogo enquanto Schweinsteiger sobe; Toni Kroos, contuntido, será compensado pelo revezamento entre Thomas Muller, Ribéry e Shaqiri

– O trombador-fazedor-de-gols da vez é Mario Mandzukic, que é mortal também no cabeceio.

– O banco de ‘reservas’ de respeito: Rafinha, Boateng, Batstuber, Contento, Luis Gustavo, Robben, Mario Gomes, Pizarro…apesar da roçadeira Tymoshchuk.

Sim, o time ainda é coadjuvante comparado às potências Barcelona e Real Madrid e pode-se equiparar ao conterrâneo Borussia Dortmund (que ficou com o título nacional nas últimas duas temporadas) nessa etapa de quartas da Champions, no entanto se iguala com os catalães em número de títulos e no ano passado tiraram os franco-favoritos madrilenhos da final. Se não têm um Messi ou um Cristiano Ronaldo que se desponta, pelo menos tem um grupo sólido que sabe se fechar e atacar estrategicamente, que deve ser a tendência seguida no mundo, só Mano Menezes e Felipão não conseguem perceber.

Lembrando que o campeão da Libertadores do ano passado tinha um conjunto que superou Juninho Pernambucano, Neymar e Riquelme. Já o campeão da Champions soube usar muito bem seu centroavante isolado usando essa metodologia.

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Brasileiro adora ignorar livros. Falo isso com propriedade porque ainda me lembro das propagandas valorizando o hábito, mais precisamente 1998 nos tempos de ginásio, e hoje esse tipo de divulgação virou totalmente alternativa; falta de consumo seria o motivo mais apropriado. Outra constatação triste sobre o fato é o número de bibliotecas e livrarias existentes em nosso território, com uma média quinze vezes menor que lan houses e um total de estabelecimentos inferior à Bueno Aires (esta que ainda perde para Paris, Roma, Berlim e Londres). E as razões a essa estatística tem lógica e fundamento sim.

Primeiro as vantagens de ler. Assim como o alongamento ajuda no exercício físico, a leitura prévia de um livro ‘acende’ e estimula o cérebro antes de estudar, em especial se tratando de raciocínio. Não importa subcapítulo, capítulo, 10, 30 páginas e sim que seja sua escolha.  Não entrarei no mérito de livro tradicional ou e-book ecológico, desde que seja útil.

Depois, quanto maior a leitura mais requintado fica o vocabulário e o conhecimento, certamente resultando em destaque positivo ao nosso português e nossa cultura, tão mal-tratados e literalmente mal-falados no cotidiano. Um professor de literatura confessou que um dos seus hobbies era decorar palavras do dicionário. Acredito que prosas e poemas são mais bem-vindos e dinâmicos.

Outro ponto a favor do livro, daí uma opinião de um formado em humanas, é a fonte de pesquisa. Esquematizar, sintetizar e interpretar o que está pesquisando. Nada mais digno de respeito e aprovação do que um trabalho de poucas páginas se comparado à inúmeras lidas e relidas.

Mas muitos dos problemas para o brasileiro apreciar um livro tem como ponto de partida duas características: Preguiça e correria no dia-a-dia. Pelo primeiro o melhor exemplo são os alunos, ávidos pelos resumos no oráculo Google, procurando enganar ao máximo os professores com polígrafo de sobra no momento da correção. Sobre o segundo é até compreensível: é exigir demais uma leitura do cidadão após horas de trabalho, mais estudos, mais cuidar das casa, mais a(s) prole(s), mais planejar como vai ser o próxima jornada.

O outro fator de distanciamento do brasileiro e o livro diz respeito ao governo (sempre ele), que taxa os livros de forma absurda, não valoriza a formação nem de escritores/pesquisadores nacionais tampouco intérpretes para traduzir o que vem de fora.

Segue abaixo algumas fotos das melhores bibliotecas do mundo, com o link onde estão reunidas as top 10.

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http://br.noticias.yahoo.com/fotos/10-lugares-no-mundo-para-voc%C3%AA-que-adora-livros-slideshow/

Lance Armstrong não poderia escolher melhor programa, para expelir de vez o que todos já desconfiavam, sabiam e só queriam ouvir do próprio meliante. A mãezona Oprah Winfrey veio a calhar para relatar o uso de substâncias proibidas para vencer suas competições (Volta da França e Olimpíada) talvez na tentativa desesperada de causar comoção e angariar milhares de perdões, seja dos (ex)fãs, pessoas vinculadas ao esporte, família, dentre outros.

O ciclista pode até ter amenizado a grande marcha irreparável na carreira esportiva ao bancar o réu confesso, no entanto experts da edição midiática não perderam tempo em recordar que ele negou incansavelmente estar dopado durante as competições, a ponto de perder a paciência e usar a frase corriqueira “Pela última vez…”. Grande parte de seus admiradores vai esquecer a superação da luta contra o câncer, ou senão refletir aquele marketing das pulseiras coloridas e engajadas como oportunistas, o que é muito pior.

Os comitês e organizações já calculam o preço em dinheiro a ser pago por Lance, algo em torno de U$$8 milhões (até o momento), além de ter retirado todos os títulos conquistados no período em que trapaceou. Armstrong só piorou a reputação já devastada e devassada do ciclismo, em razão de quase todos vice-campeões da France Tour terem sido acusados e culpados no anti-doping, a exemplo de Alberto Contador.

Deixando de lado todo o pelotão de fuzilamento, é hora de analisar os outros culpados nesse episódio. Armstrong junto a todos esportistas que foram pegos (Javier Sotomayor, Cesar Cielo e Diego Maradona) são os pregos que se destacaram, mas o que quase ninguém percebe é o círculo em torno do atleta que motiva tal uso.

Formado por empresários, patrocinadores e técnicos, exigem o serviços de especialistas na área da saúde para tornar seu ‘pupilo-produto-fonte-de-renda’, uma máquina de vencer e de retornar dinheiro, nem sempre nessa ordem. Os atletas, já que não têm outra saída para não frustrar suas metas, aceitam os inocentes medicamentos, que ultimamente são citados sob a desculpa de pomadas estéticas.

Vale lembrar que isso não é senso-comum. Há muitos profissionais que realmente se destacam enfrentando todas as dificuldades possíveis, vide Novac Djokovic, tenista sérvio número 1 do mundo, ainda que tenha asma e seja alérgico a glúten.

Que o caso se torne um exemplo às futuras gerações do esporte, em especial no controle honesto da saúde durante seus trabalhos, igualmente para os agentes que os cercam, evitando que temáticas e tramas como do filme ‘Jogos Vorazes’, no qual o que vale são os lucros e a audiência.

Armstrong é culpado e causou prejuízos pelo que fez, mais aos outros do que a si mesmo, mas ele não está sozinho nesse bando.

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Confesso que desanimei quando Daniel Craig foi escolhido o novo 007: “Depois de anos da elegância (forçada é verdade) de Pierce Brosman chegou a vez dos brucutus?” Foi o que pensei. Similares ambos fazem o famoso biquinho ao atirar a lendária pp7 (lembrei do nome pelo game) e a ‘corrida ereta’ a lá T1000 em Exterminador do Futuro II. Cassilo Royale, de 2006, foi mediano, e Quantum of Solace (2008) só não foi perfeito porque os roteiristas insistiram no enredo “América Latina: terra de ditadores e traficantes”. Apesar disso, os dois filmes acusaram alguns podres da geopolítica internacional, que enfatiza uma Inglaterra sempre na saia justa com os irmãos norte-americanos.

Mas nesse magnífico trabalho dirigido por Sam Mendes, dos enigmáticos Beleza Americana e Soldado Anônimo, a forçada de barra incrivelmente passou desapercebida. Preocupados em recuperar um HD com nomes de agentes infiltrados nas mais terríveis organizações terroristas do mundo que caiu em mãos erradas, Bond sai em busca de mercenários terceirizados para salvar a agência MI6 de mais um vexame público. Ainda que contasse com a ajuda de Eve (Naomie Harris), o plano fracassa.

Junto com uma Judi Dench apreensiva e exausta, vem a tona um novo chefe burocrático e desconfiado (Ralph Fiennes) disposto a mudar toda a política de atuação interna e externa, piorada por um atentado a bomba dentro da própria agência via hacker. O chefão dessa tramoia toda é Silva, um Javier Bardem cínico, sarcástico e debochado, um filho bastardo dos tempos de treinamento de James Bond.

O filme cativa a qualquer fã dos filmes do agente, mesmo com a ausência de carrões equipados, pequenos objetos explosivos, dentre outros. Isso talvez foi pensado pelo próprios criadores, já que tais efeitos remetem à época de espionagens de Guerra Fria, algo superado nos filmes de ação dos anos 2000. Outro aspecto interessante são as lutas do filme, diretas, curtas e efetivas, claro que a favor de Bond, sem (muitos momentos) de cansativas imobilizações e o suspense na hora de atirar nos ‘bonzinhos’.

Como todo filme na Era Craig, o final do filme indica uma provável continuação, porém no momento em que é questionado por um psicólogo qual a relação com a palavra Skyfall (o significado é revelado na parte final), Bond não hesita em dizer: Fim! Será?

Onde os fracos agentes não têm vez

Para o quê? Paralelo?

Posted: 26/06/2012 by sobziro in Eu acho que..., Geral
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 Desde a última sexta-feira (22/6) o Paraguai vem sendo comentado nos noticiários, tomando o lugar da cúpula do Rio+20, com o impeachment de Fernando Lugo à presidência. Foi alegado pelo senado paraguaio o argumento de não-cumprimento das funções administrativas de Lugo, reconhecido constitucionalmente. Mais do que a troca de governantes foi comentado as reações de presidentes vizinhos. Qual o motivo de tanto temor sobre a ação em um dos países latino-americanos mais ‘abandonados’ ?

Fernando Lugo foi eleito democraticamente em 2008, para delírio da ala esquerda continental, como Hugo Chávez, Rafael Corrêa e Lula, prometendo medidas duras e revolucionárias em prol da população esperançosa por mudanças, depois de décadas frustradas com o Partido Colorado. Impostos maiores sobre as oligarquias, reforma agrária, embargar imposições dos EUA…a ponto do cineasta Oliver Stone, devoto de Fidel Castro, vir gravar o famigerado e colorido “Ao Sul da Fronteira”, no qual Nestor Kirchner engrandece a esposa Cristina no poder argentino.

Mas tamanha lua-de-mel durou pouco, e não demorou para o ex-bispo entrar em apuros, a começar pela vida pessoal. Lugo assumiu a paternidade de dois filhos e, até o momento, há outras duas mulheres que confirmam terem herdeiros seus, o que lhe valeu o apelido de ‘El Conejo’ (O coelho). Depois, persuadiu o governo brasileiro a pagar mais pela cota de energia paraguaia de Itaipu, usina hidrelétrica binacional, triplicando o valor anual de U$$100mi para U$$300mi.

Talvez o que tenha culminado em sua destituição foi a indiferença perante os problemas agrários, que envolvem inclusive brasileiros, os ‘brasiguaios’, sendo um velho problema que nunca se resolve nas América Latina. Acusado de liberar o confronto entre policiais e sem-terra no dia 15 último, no qual 17 pessoas foram mortas, Lugo se defende dizendo que não teve chance de se defender.

A Unasul já descartou a participação do Paraguai na próxima reunião, o mesmo fez o Mercosul, ou seja, graças a uma ‘tragédia’ tais reuniões ganharam destaque na mídia. Enquanto Venezuela, Bolívia, Equador e Argentina condenaram a ação política (Chávez já suspendeu o abastecimento petrolífero), rotulada como Golpe de Estado, Dilma & Cia ainda estuda sanções e (como) dialogar com o novo governante Federico Franco, empossado até abril do ano que vem. Coincidência no impeachment paraguaio também ter saído um Fernando e entrado um Franco?

Lugo, ainda que contrariado, disse que aceita o decreto institucional, votado por esmagadores 39 a 4, porém diz que pretende não se distanciar do poder por meio da fiscalização dos atos de Franco, contando com a ajuda de seus ex-ministros, tudo indica que seu objetivo é montar um poder paralelo. O grupo político do continente, que se diz sólido, de forma direta ou indireta, terá que atuar, evitando o resumo da famosa piada do Paraguai: Para quê?

La Propried ou la función?

Eastwood, Seu Safadenho!

Posted: 05/02/2012 by sobziro in Uncategorized
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Clint Eastwood ganhou notoriedade com seus filmes de bang-bang, mas nos últimos 10 anos se destacou mais orientando subordinados atrás das lentes. E seu talento versátil em conduzir vai de temas literários (Sobre Meninos e Lobos) até histórias reais (Invictus, Carta de Iwo Jima), quebrando tabus (Menina de Ouro) ou mimetizando reflexões (Gran Torino, Além da Vida)

Porém o seu novo trabalho J. Edgar, com Leonardo DiCaprio interpretando o grande nome do FBI, gerou comentários controversos. Segue abaixo duas opiniões diversas, extraídas do caderno Ilustrada, da Folha de São Paulo.

Bonecas Perigosas (João Pereira Coutinho)

“As expectativas não eram elevadas. Um filme sobre o controverso J. Edgar Hoover, lendário diretor do FBI, escrito por Dustin Lance Black, o roteirista de “Milk”?

Mau presságio. Mesmo com Clint Eastwood ao leme, a pena panfletária de Black acabaria por fazer estragos.

Não me enganei. “J. Edgar” é, do ponto de vista cinematográfico, pobre, derivativo, às vezes paródico, sobretudo quando Leonardo Di Caprio, envelhecido por quilos de maquiagem, faz lembrar um boneco de cera do Madame Tussauds.

Mas o problema do filme não está apenas na estética; está na preguiça ética com que Black (e Eastwood) retrata o personagem.

O cinema de Clint Eastwood sempre foi exemplar pela forma adulta como o diretor filma os seus heróis e anti-heróis. Se os fanáticos preferem dilemas maniqueístas, Eastwood opta pelas zonas cinzentas da ambiguidade moral.

“Os Imperdoáveis”, filme elegíaco sobre o Velho Oeste, é o supremo exemplo da complexidade de
Eastwood: o pistoleiro William Munny pode ser um assassino a soldo com um longo e sanguinário passado; mas é também o derradeiro agente da justiça terrena. Sobretudo quando as instituições dos homens se mostram corruptas e imperfeitas.

Essa complexidade abrandou com o incompreensível “Invictus”: fascinado pela figura estimável de Nelson Mandela, Eastwood construiu um retrato hagiográfico e unidimensional de Mandela, tratado como uma espécie de madre Teresa da africanidade.

Que a personalidade de Mandela fosse mais contraditória do que o filme sugere (e a biografia “Conversas que Tive Comigo” mostrou-o há pouco), eis uma hipótese que não ocorreu ao deslumbrado Eastwood.
Como não ocorreu em “J. Edgar”. O filme, dizem as resenhas, é uma “biopic” de John Edgar Hoover.
Acontece que não é. O filme é apenas uma versão histérica dos rumores que abundam sobre ele.
Para começar, rumores sobre a sua vida privada: um homossexual reprimido, dominado pela mãe, que gostava de usar vestidos na intimidade e manteve relação secreta com o seu assistente, Clyde Tolson, até ao fim da vida.

Clint Eastwood compra cada um desses rumores, nenhum deles confirmáveis por fatos históricos. E não hesita em filmar Leonardo Di Caprio a experimentar em frente ao espelho um vestido da mãe morta. Difícil chegar tão baixo.

Essa sequência do vestido não é apenas um clichê narrativo escusado; será a base de todos os clichês posteriores, como se os vícios de Hoover brotassem da mesma fonte: sua relutância em sair do armário.
Se Hoover não fosse uma boneca enrustida, sugere Eastwood, não haveria chantagens sobre vários presidentes americanos de forma a conservar o seu poder; não haveria o uso indevido de informações confidenciais (e ilegais) para neutralizar os seus adversários; não haveria megalomania paranoica nas suas meditações autobiográficas.

E, claro, o seu “anticomunismo primário” daria lugar a uma espécie de tolerância multiculturalista “avant la lettre”. Se Hoover não fosse veado, ele e Al Capone até poderiam ter sido bons amigos.

Longe de mim sugerir que Hoover era um santo. Com a exceção de Nelson Mandela, ninguém é.
Sabemos hoje que Hoover alimentou hostilidade permanente contra os Kennedys motivada por feroz antipatia ideológica. E seu comportamento persecutório em relação a Martin Luther King, que o filme reduz a mero puritanismo sexual, ilustra só a incapacidade de Hoover em entender a importância de King na luta pelos direitos dos negros.

Mas também sabemos que o FBI se tornou um exemplo de investigação criminal único na época e no mundo; que Hoover foi implacável com as máfias organizadas que operavam durante a Grande Depressão; e que o seu “anticomunismo primário” talvez seja explicado pelo medo real de uma ideologia que produziu mais de 100 milhões de cadáveres no século 20.

Eastwood recusa a complexidade histórica que produziu Hoover. Prefere transformá-lo numa caricatura freudiana, obcecada com a sexualidade alheia e envergonhada com a homossexualidade própria.
Eis um caso irônico de como é possível fazer um filme-denúncia e ser mais papista que o Papa.”

O Lado Humano (Marcelo Coelho)

“J. Edgar Hoover era um monstro, e um dos méritos de Clint Eastwood, em seu filme sobre o chefão do FBI, foi o de não torná-lo menos monstruoso, mesmo depois que o espectador fica conhecendo melhor o “lado humano” do personagem.

Mentiroso, paranoico, chantagista, brutal -por algum milagre, todo esse acúmulo de coisas antipáticas consegue ganhar, não digo empatia, mas cumplicidade por parte do espectador do filme.
É que, como em tantas produções hollywoodianas, celebra-se acima de tudo a grandeza de uma pessoa que é boa no que faz.

O sujeito pode ser um policial assassino, um psiquiatra corrupto, um jogador de pôquer especializado em maltratar velhinhas. O que importa é que ele seja o mais esperto dos policiais, o mais brilhante dos psiquiatras, o melhor jogador de pôquer do Oeste -basta isso para o filme nos conquistar.

Eis então o jovem John Edgar Hoover (Leonardo DiCaprio) lutando com máxima convicção por uma causa correta: a unificação do arquivo de impressões digitais das polícias estaduais americanas.
A ideologia é o de menos: estamos torcendo pela vitória da competência sobre a incompetência.

Acresce o fato de que os primeiros passos de Hoover, na criação do moderno FBI, dirigiam-se na perseguição dos responsáveis por uma onda de atentados terroristas (alguém se lembrava disso?) nos Estados Unidos de 1919.

Muito do que se viu depois do 11 de Setembro já estava lá: desrespeito ou distorção das leis e dos princípios constitucionais, crônico risco de cometer-se injustiça contra inocentes. Não faz mal, parece dizer o filme, uma vez que os terroristas foram mesmo descobertos.

Não há nenhuma cena mostrando gente honesta sendo deportada, famílias chorando, pessoas apanhando sem razão.

Princípios constitucionais são coisa abstrata no filme, enquanto a luta de Hoover é concreta.
Em todo o caso, os sucessos iniciais do personagem são logo eclipsados pela intenção crítica do filme. Cada vez mais delirante e direitista, Hoover dedica mais tempo a investigar a vida pessoal de John Kennedy e Martin Luther King do que a prevenir o assassinato dos dois.

Ainda assim, parece dizer Clint Eastwood, perto do que seriam as investigações e chantagens tentadas pelo governo Nixon, a sordidez de Hoover merece algum desconto.

A estratégia do ruim contra o pior encontra paralelo na maquiagem do filme. Os atores coadjuvantes, quando envelhecem, estão com uma maquiagem tão ruim, e são tão capengas os sósias de Nixon e Bob Kennedy, que qualquer falha na caracterização de Leonardo DiCaprio como Hoover fica impossível de perceber.

Falta falar do “lado humano”. Com toda a sua violência implacável, Hoover ocultou durante toda a vida uma preferência homossexual.

Nada melhor para o surgimento de um bom detetive do que o fato de ele precisar muito esconder seus próprios segredos. Em “Sherlock Holmes: O Jogo de Sombras”, de Guy Ritchie, a velha suspeita de uma paixão entre Holmes e Watson é tratada com explícito deboche.

A exemplo da dupla Walter Matthau e Jack Lemmon em “A Primeira Página”, a união profissional faz tudo para estragar uma viagem de núpcias; mas aqui os indícios de homossexualidade se repetem tanto que a graça da coisa está em que ninguém precisa ser detetive para percebê-los.

Tudo leva a crer que, às voltas com a “decadência moral” de seu país, Hoover se tornou inteligente (e paranoico) graças ao esforço de negar o que via como decadente dentro de si mesmo.

No filme de Clint Eastwood, o personagem de Leonardo DiCaprio cita involuntariamente Oscar Wilde: “Matamos aquilo que mais amamos”. A frase se refere ao pessimamente levado caso de amor entre Hoover e seu ajudante, Clyde Tolson.

Mas poderia referir-se -e nisso “J. Edgar” não decepciona seus espectadores- ao próprio sistema político americano. Liberdade e democracia, de tanto esforço dos que queriam protegê-la de comunistas e terroristas, terminam ameaçadas o tempo todo.

É que seus defensores, muitas vezes, convivem com uma brutal ditadura da sexualidade dentro deles mesmos. Natural que descontem sua opressão interna nos coadjuvantes que tenham por perto -da secretária do escritório ao “paiseco” latino-americano mais próximo.

Quem sabe alguma “História Politicamente Correta da América Latina” pudesse ser escrita -sem a chatice que promete o título.”

Bang! Your Móda Foca!

Hoje será aberto a temporada de recomendações da casa, que sempre estará aberta a sugestões de amigos e colegas. Pra começar com pé-direito (espero), um livro que aborda a colonização da América Latina chamado A Controvérsia, escrito pelo cineasta Jean Claude-Carriére.

Nada de relatos minuciosos de Américo Vespúcio ou Pero Vaz de Caminha, muito menos críticas viajadas sem sentido de Buffon (naturalista francês e não o goleiro italiano), a trama se passa na Espanha, com um debate religioso envolvendo dois intelectuais na época: Juan Ginés de Sepúlveda e Bartolomé de Las Casas.

A primeiro era filósofo e estava disposto a afirmar que os indígenas na América não eram humanos, enquanto o segundo era um frade defensor dos direitos dos primeiros habitantes da Ilha Hispaniola (atuais Cuba e Jamaica).

Com audiências que duram horas e atravessando dias, ambos tentam convencer a autoridade maior da Igreja Católica, a toda-poderosa na Europa até o século XVI, que os índios encontrados por Colombo tinham ou não o direito de conviver com os que vinham da metrópole. Recheados de acusações absurdas e defesas, a trama praticamente prende o leitor até o término dos capítulos para saber qual a conclusão dos protagonistas.

A novela ‘ensaiada’ por Carriére nada tem de fontes confiáveis comuns aos livros de História. Talvez por isso seja interessante na obra, já que a relato descritivo literário é usado à exaustão nos intervalos dos debates.

O livro está a preços acessíveis (de R$39 a R$49) e é uma ótima pedida para as tardes do fim de semana chuvosos de Janeiro, quando os campeonatos de futebol e BBB ainda não começaram.