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Nunca antes da história desse país importar seres humanos causou tanta revolta. A abertura feita pelo ministro Alexandre Padilha, talvez buscando moral em uma eventual disputa pelo governo paulista em 2014, estourou o pavio de todos que queriam opinar sobre a polêmica. Lógico que a questão dos Médicos Cubanos vai muito além do parecer de situação ou oposição. Difícil saber quem está certo nessa queda de braços, mas é fácil ver quem está errado: O governo em seu descaso com a saúde brasileira.

O programa Mais Médicos foi um esforço – ou uma farsa – de tentar amenizar o rombo de profissionais médicos nas áreas distantes e ignoradas. À baixa procura se dá o argumento de formandos que aspiram trabalhar em clínicas sem convênio ou hospitais modelos Albert Einstein e Sírio Libanês. No entanto, o número de ‘regalistas’ é desprezível se comparar aos éticos, que enfrentam de tudo (mesmo!) para atender quem não têm condições sequer de ir aos postinhos públicos.

O governo não divulga, ou melhor não investe, no aparato essencial à essa classe trabalhista: remédios, materiais descartáveis, instrumentos de centros cirúrgicos…isso adicionado às baixas remunerações considerando os anos de preparo e dedicação na residência. Os esquerdistas dizem que a vinda de médicos abalará a chamada burguesia, aquela mesmo que paga convênios caros e freqüenta festas da revista Contigo. Será no mínimo interessante adequar conhecimento científico cubano, que já foi um dos mais avançados do mundo, à nova realidade e novo idioma.

Um Revalida cairia muito bem nesses compadres de jaleco. Os principais males, disponíveis no órgão OMS, variam, não somente conforme o tratamento desenvolvido, mas também a geografia e a sociologia de cada país. Não se deve tratar a dengue brasileira como uma cólera cubana.

Exportar médicos é medida antiga na ilha, e o programa vem ganhando incentivo e adeptos pelas condições enfrentadas internamente: Salários de R$100 sob uma jornada semanal de mais de 50 horas, em um país que sofreu embargo de quase tudo na área de tecnologia (só eram abastecidos pelos bélicos soviéticos). Visto por essa ótica é fácil perceber porque preferem atuar em qualquer país que não seja a terra natal. Se tem como piorar a situação, por aqui terão que repassar 90% do salário ao governo cubano.

Nesse aspecto as relações internacionais deram um tiro no pé, já que é impossível tratar acordos desse porte mantendo a imparcialidade: a ditadura castrista ainda perdura a plenos pulmões, representada pelo ‘moderado’ Raul como marionete do irmão Fidel. Os prestadores de serviço chegam às cegas e às amarras para o Brasil. Nada de direitos trabalhistas, participações em congresso ou envolvimento político. Ou isso ou volta para Havana e arredores.

O Ministro Padilha usa a armadura das estatísticas e o escudo da utopia medicinal cubana em seus discursos, mas sempre deixa de lado (seria de propósito?) a espada da eficiência e o machado da ética. Fosse o investimento na raiz do problema, com certeza não precisaria de tal socorro estrangeiro. Aloizio Mercadante que não copie essa tática e traga professores chineses e russos para melhorar o rendimento brasileiro no Ideb.

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“O PT está usando uma tática de difamação contra os médicos brasileiros igual à usada pelos nazistas contra os judeus: colando neles a imagem de interesseiros e insensíveis ao sofrimento do povo e, com isso, fazendo com que as pessoas acreditem que a reação dos médicos brasileiros é fruto de reserva de mercado. Os médicos brasileiros viraram os “judeus do PT”.

Uma pergunta que não quer calar é por que justamente agora o governo “descobriu” que existem áreas do Brasil que precisam de médicos? Seria porque o governo quer aproveitar a instabilidade das manifestações para criar um bode expiatório? Pura retórica fascista e comunista.

E por que os médicos brasileiros “não querem ir”?

A resposta é outra pergunta: por que o governo do PT não investiu numa medicina no interior do país com sustentação técnica e de pessoal necessária, à semelhança do investimento no poder jurídico (mais barato)?

O PT não está nem aí para quem morre de dor de barriga, só quer ganhar eleição. E, para isso, quer “contrapor” os bons cidadãos médicos comunistas (como a gente do PT) que não querem dinheiro (risadas?) aos médicos brasileiros playboys. Difamação descarada de uma classe inteira.

A população já é desinformada sobre a vida dos médicos, achando que são todos uns milionários, quando a maioria esmagadora trabalha sob forte pressão e desvalorização salarial. A ideia de que médicos ganham muito é uma mentira. A formação é cara, longa, competitiva, incerta, violenta, difícil, estressante, e a oferta de emprego decente está aquém do investimento na formação.

Ganha-se menos do que a profissão exige em termos de responsabilidade prática e do desgaste que a formação implica, para não falar do desgaste do cotidiano. Os médicos são obrigados a ter vários empregos e a trabalhar correndo para poder pagar suas contas e as das suas famílias.

Trabalha-se muito, sob o olhar duro da população. As pessoas pensam que os médicos são os culpados de a saúde ser um lixo.

Assim como os judeus foram o bode expiatório dos nazistas, os médicos brasileiros estão sendo oferecidos como causa do sofrimento da população. Um escândalo.

É um erro achar que “um médico só faz o verão”, como se uma “andorinha só fizesse o verão”. Um médico não pode curar dor de barriga quando faltam gaze, equipamento, pessoal capacitado da área médica, como enfermeiras, assistentes de enfermagem, assistentes sociais, ambulâncias, estradas, leitos, remédios.

Só o senso comum que nada entende do cotidiano médico pode pensar que a presença de um médico no meio do nada “salva vidas”. Isso é coisa de cinema barato.

E tem mais. Além do fato de os médicos cubanos serem mal formados, aliás, como tudo que é cubano, com exceção dos charutos, esses coitados vão pagar o pato pelo vazio técnico e procedimental em que serão jogados. Sem falar no fato de que não vão ganhar salário e estarão fora dos direitos trabalhistas. Tudo isso porque nosso governo é comunista como o de Cuba. Negócios entre “camaradas”. Trabalho escravo a céu aberto e na cara de todo mundo.

Quando um paciente morre numa cadeira porque o médico não tem o que fazer com ele (falta tudo a sua volta para realizar o atendimento prático), a família, a mídia e o poder jurídico não vão cobrar do Ministério da Saúde a morte daquele infeliz.

É o médico (Dr. Fulano, Dra. Sicrana) quem paga o pato. Muitas vezes a solidão do médico é enorme, e o governo nunca esteve nem aí para isso. Agora, “arregaça as mangas” e resolve “salvar o povo”.

A difamação vai piorar quando a culpa for jogada nos órgãos profissionais da categoria, dizendo que os médicos brasileiros não querem ir para locais difíceis, mas tampouco aceitam que o governo “salvador da pátria” importe seus escravos cubanos para salvar o povo. Mais uma vez, vemos uma medida retórica tomar o lugar de um problema de infraestrutura nunca enfrentado.

Ninguém é contra médicos estrangeiros, mas por que esses cubanos não devem passar pelas provas de validação dos diplomas como quaisquer outros? Porque vivemos sob um governo autoritário e populista.”

Luiz Felipe Pondé, pernambucano, filósofo, escritor e ensaísta, doutor pela USP, pós-doutorado em epistemologia pela Universidade de Tel Aviv, professor da PUC-SP e da Faap, discute temas como comportamento contemporâneo, religião, niilismo, ciência. 

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