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‘O tempo já não é como antes. “A Sexta Extinção”, livro da jornalista Elizabeth Kolbert publicado há pouco nos Estados Unidos, faz uma súmula das relações do planeta com a ciência. As perspectivas da Terra são péssimas. Vem aí o fim da vida tal como a conhecemos.

O apocalipse não é novidade. Todo relato abrangente sobre a Terra implica especulações sobre o seu futuro. Se o futuro é sombrio, e Elizabeth Kolbert pouco diz a respeito dele, o seu livro tem muito a ensinar sobre o passado e o presente.

Ela demonstra que o mundo vem ficando mais velho, e não só a cada ano que passa. Descobertas científicas, novos aparelhos de medição e cálculos rigorosos comprovam que ele é muitíssimo mais antigo do que se pensava. É tido como certo que o planeta tem mais de 4,5 bilhões de anos. Bilhões.

Já os humanos pintaram ontem, no Pleistoceno, há meros 12 mil anos. Para quem penava em imaginar o mundo antes dos dinossauros, ou mesmo a época de Homero, agora ficou impossível. O tempo humano não é o geológico. Vivemos no presente. As poucas pessoas que olham para trás não veem nada, apenas uns poucos séculos. Depois, trevas.

A última grande crise ambiental ocorreu há 65 milhões de anos. Milhões. Um asteroide dos grandes se espatifou num lugar onde fica hoje o México. Provocou a queda súbita, extrema e duradoura da temperatura. Pentilhões de espécies sucumbiram. Foi a quinta grande extinção.

Que horas são? É meio-dia da sexta extinção, a que dá título ao livro. Ela é marcada pela quantidade de dióxido de carbono liberada na atmosfera, provocando o aquecimento global. O ritmo de extinção de espécies é mil vezes mais rápido do que antes do aparecimento do homem. Mil vezes. Palmas para nós.

Palmas para todos, sem exceção. Kolbert diz que é errado associar a extinção a um caçador fuzilando elefantes. “Imagine você mesmo com um livro no colo”, escreve. Não importa se o indivíduo age para estancar o esquentamento da Terra. “O que importa é que as pessoas mudam o mundo”.

A mudança é para pior. Ou, se for para evitar um julgamento, a mudança é no sentido de haver um corpo celeste com menos formas de vida. É um tempo de extinção. Talvez da própria espécie humana.

Nem sempre foi assim. Tempo houve em que a escatologia não se misturava com a ciência. O final dos tempos e do mundo era domínio dos místicos. Servia para maravilhar, meter medo, manter no aprisco o rebanho dos crentes.

Mais recentemente, quando foi ligado ao pensamento racional, o futuro pareceu radioso. A ciência e a tecnologia, imaginaram os adeptos do progresso, criariam inevitavelmente máquinas que tornariam a vida suave. Do outro lado, entre os críticos dialéticos, tentou-se inventar uma sociedade sem a canga do trabalho, na qual todos fossem livres.

Não deu certo. Então isso vem se erodindo: a possibilidade da sociedade moldar o futuro. Mulheres e homens não agem como espécie, e sim como classes e nações. Daí a miséria, as catástrofes ambientais, as guerras. É certeza que não haverá Idade do Ouro.

(Entre parênteses: a Boitempo lançará na semana que vem “O Novo Tempo do Mundo”, livro formidável no qual Paulo Arantes lida com esses temas de uma perspectiva histórica e materialista).

Melhor então buscar a Idade de Ouro no passado e na poesia. Existem tempo e vida em Hesíodo, Ovídio e Saint-Simon, que escreveram a respeito dela. E em Lévi-Strauss:

“Se os homens sempre atacaram uma única tarefa, a de criar uma sociedade habitável, as forças que animaram nossos longínquos antepassados também estão presentes em nós. Nada está decidido; podemos recomeçar tudo. O que foi feito e falhou pode ser refeito: a Idade do Ouro, que uma superstição cega colocou atrás (ou adiante) de nós, está dentro nós”‘

(Mário Sérgio Conti)

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