Posts Tagged ‘Ayrton Senna’

“Senna tinha tudo o que se poderia querer num herói.

Para o consumo externo: era brasileiro, e ainda que o país já tivesse história na F-1, pilotos daqui eram sempre vistos pela Europa como exóticos, vencedores pelo simples fato de terem chegado lá.

Para o consumo interno: era o único brasileiro a ganhar alguma coisa naqueles meados e fins de anos 80, início dos 90. A seleção enfileirava fiascos, o vôlei era incipiente, a inflação galopava, os planos econômicos se sucediam, as Diretas fracassaram, o complexo de vira-latas atingia níveis estratosféricos.

Era atlético, numa época em que vários pilotos fumavam e tantos outros eram barrigudos. Era bonito perto de Piquet, Mansell e Prost.

Aliás, era o mais jovem da turma, o que sempre desperta simpatia.

Falava bem, e sua entrevista ao “Roda Viva”, reprisada na semana passada, faz muitos esportistas de hoje assemelharem-se a zumbis lobotomizados por assessores de imprensa.

Tinha noção do valor de manter uma boa imagem.

Numa era pré-internet e em que ligações internacionais eram luxo, telefonava para as Redações dos jornais após cada etapa na F-3 inglesa para relatar o resultado e dar suas impressões.

Quando na F-1, fazia o bom moço, ainda que não o fosse por completo –nenhum campeão o é. Via Deus na curva, falava na importância de perseguir os sonhos, virou personagem de história em quadrinhos.

E namorou a Xuxa! Quer mais?

No cockpit, tinha um talento natural, dos maiores que a F-1 já viu.

Imagine um piloto estrear por uma equipe pequena e, na sexta corrida, num circuito traiçoeiro como Mônaco, debaixo de chuva torrencial, chegar em segundo lugar.

Imagine chegar à McLaren, ao lado de um bicampeão mundial, e logo no primeiro ano conquistar o título.

Imagine vencer pela primeira vez na F-1, com um carro inferior e pista molhada, no mesmo dia da morte da então grande esperança nacional –Tancredo Neves.

Ou um piloto amargar fracassos em casa, mas um dia vencer diante de seu público contornando as últimas voltas com apenas uma marcha e sair do carro debilitado, amparado por médicos.

Ou largar em quarto numa corrida, cair para quinto, fechar a primeira volta na liderança e vencer com 1min23s (!!) de vantagem.

Era um obcecado pelo sucesso. E possuía as ferramentas, todas elas, para obtê-lo.

Pois este personagem morreu ao vivo, diante de olhos incrédulos do mundo todo. Alguma coisa tinha que estar errada. Heróis não morrem, afinal.

O enredo que transformou Senna em mito dificilmente será repetido.

É único. Deve continuar assim, por mais 20, 40, 60 anos. Mais. Mais.
Mais que o herói possível. Senna foi impossível.”

(Fábio Seixas)

Oleg Konin fez esse quadro em 2012, intitulado Formula Alone, retratando o único desejo dos fãs

Oleg Konin fez esse quadro em 2012, intitulado Formula Alone, retratando o único desejo dos fãs

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Saudades (e Obrigado) Ayrton!

Posted: 01/05/2013 by sobziro in Eu acho que..., Geral
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Além do dia da Labuta, o 1º de Maio é lembrado no Brasil pela partida do último atleta brasileiro com caráter: Ayrton Senna. Ele foi o cara porque:
– Ganhou uma corrida usando somente a segunda marcha, com a memorável imagem em que ele mal conseguia erguer o trofeu
– Nunca se sujeitou às ‘regras-carteis’ da F1 (regras para beneficiar uns, acordos para fazer a alegria de outros)
– Teve personalidade para bater de frente com o mala Alan Prost, diferente de outros brasileiros aí que se curvam às ordens de rádio do pit-stop
– Respondeu às provocações do falastrão Nelson Piquet, que insinuou em rede aberta sua orientação sexual
– Foi tricampeão mundial se valendo de seus méritos e reconhecendo quando o adversários iam melhor, em épocas que pilotos e motores eram extremamente equilibrados (Mansel, Rossberg, Berger…)

– Idolatrado por Juan Manuel Fangio, uma lenda da F1; Ou seja, um argentino fã de brasileiro!
– Deixou um legado filantrópico com o instituto que leva o seu nome, e sua irmã Viviane ainda tenta sair de sua sombra (sem o lendário capacete amarelo em mãos)
– Motivava reuniões de família aos domingos para ver as corridas, a macarronada da vovó corria solta, e até se esquecia do Galvão Bueno narrando
– Era corinthiano declarado

É, ele nunca se arrependeu das escolhas (talvez a Xuxa...ops!)

É, ele nunca se arrependeu das escolhas (talvez a Xuxa…ops!)