Archive for the ‘Palavras de quem sabe’ Category

“União Brasileira Socialista Soviética. Piada de mau gosto mesmo, também acho, mas a pena mesmo é que a discussão política entre nós seja da idade da pedra e o socialismo ainda seja levado a sério. A piada de mau gosto mesmo é que estamos à beira de um golpe de Estado invisível no Brasil.

O leitor e a leitora já estão a par do decreto do governo que institui a Política Nacional de Participação Social e o Sistema Nacional de Participação Social? Trata-se de decreto para aparelhar movimentos como o MST (gente que quer tomar a terra alheia), o MTST (gente que discorda da ideia de que se deve pagar pelo teto em que mora) e outros movimentos que englobam gente “sem algo” e acham que a sociedade deve dar pra eles. Esses grupos darão um golpe de Estado invisível. Tudo fruto, é claro, de setores do PT radical e os raivosos ex-PT, hoje em pequenos partidos.

Esse decreto é um golpe de Estado sem dizer que é. Lentamente, os setores mais totalitários do país, amantes de ditaduras do proletariado (ou bolivarianas) voltam à cena no Brasil. Comitês como esses tornam os poderes da República reféns de gente que passa a vida sendo profissional militante. Quando você acordar, já era, leis serão passadas sem que você possa fazer algo porque estava ocupado ganhando a vida.

Pergunte a si mesmo uma coisa: você tem tempo de ficar parando a cidade todo dia, acampando em ruas todo dia, discutindo todo dia? Provavelmente não, porque tem que trabalhar, pagar contas, levar filhos na escola, no hospital, e, acima de tudo, pagar impostos que em parte vão para as mãos desses movimentos sociais que se dizem representantes da “sociedade”.

Mas a verdade é que a maioria esmagadora de nós, a “sociedade”, não pode participar desses comitês porque não é profissional da revolução.

Tais movimentos que se dizem sociais, que afirmam que as ruas são deles, mentem sobre representarem a sociedade. Mesmo greves como a do metrô, capitaneada por uma filial do PSTU, não visa apenas aumentar salários. Visa instaurar a desordem para que o Brasil vire o que eles acham que o Brasil deve ser.

Afinal, de onde vem a grana que sustenta essa moçada dos movimentos sociais? A dos sindicatos, sabemos, vem dos salários que são obrigatoriamente onerados para que quem trabalha sustente os profissionais dos sindicatos. Mas, até aí, estamos na legalidade de alguma forma. Mas e os “sem-Macs” ou “sem-iPhones”, vivem do quê? Quando os vemos na rua, não parecem estar passando fome e frio como dizem que estão. Essa gente é motivada e sustentada de alguma forma.

Por que não se exige entrar nas contas do MST e MTST e descobrir de onde vem a grana deles? Quem banca toda essa estrutura militante? Temo, caro leitor e cara leitora, que sejamos nós, os mesmos que eles consideram inimigos, a menos que concordemos com eles.

Uma das grandes mentiras desses movimentos sociais é dizer que combatem a “elite econômica”, que, aliás, em dia de greve, fica em casa porque não precisa de fato se virar pra ir trabalhar.

Quem sofre com esses movimentos que arrebentam o cotidiano é gente que perde o emprego, perde o negócio, perde a vida se fica parada no trânsito ou na fila. É gente que, quando muito, anda de carro 1.0, não gente que anda de helicóptero.

É diarista, empregada doméstica, porteiro de prédio, professor, estudante sem grana e que tem que pagar a faculdade, não riquinhos da zona oeste paulistana que fazem sociais para infernizar a vida dos colegas.

É médico que tem três empregos, é dona de casa que cuida de filhos e trabalha fora, é trabalhador da construção civil, é gente “mortal”, comum, que não pode se defender dos caras que fecham a cidade dizendo que fazem isso em nome do “povo”.

Os movimentos sociais têm demonstrado seu caráter autoritário. Pensam que as ruas são o quintal de seus comitês, que aparelharão os poderes da República.

Se não bastasse isso tudo, vem aí o controle social da mídia. Dizer que será apenas para evitar monopólios é achar que somos idiotas. Veja o que aconteceu na Argentina”

(Luiz Felipe Pondé)

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“A decisão do sábado entre Real Madrid e Atlético reuniu o nono colocado no ranking da posse de bola contra o 14º. A temporada 2013/14 foi totalmente diferente das últimas.

Foram mais felizes os times verticais, de ligações mais rápidas entre defesa e ataque, força nas bolas paradas e contra-ataques velozes.

Não significa que sejam times de futebol feio nem defensivo.

O Real Madrid marcou 160 gols em 60 partidas na temporada.

O melhor ataque da Europa foi o campeão da Liga dos Campeões. Venceu na final a melhor defesa da liga espanhola e da Liga dos Campeões.

O técnico Carlo Ancelotti mereceu durante muitos anos a alcunha de retranqueiro. Em Munique, antes da semifinal contra o Bayern, ouviu uma pergunta sobre catenaccio e vestiu a carapuça: “Para um italiano, essa não é uma palavra feia.”

Nem bonita.

O melhor ataque da história da Premier League, o Inglês da era moderna, pertence ao Chelsea, campeão inglês de 2010 sob o comando de Ancelotti: 103 gols em 38 jogos.

No sábado, o Real Madrid chegou a 41 gols em 13 jogos da Champions League, recorde nas campanhas com 13 partidas -o Barcelona de 2000 marcou 45 vezes em 17 jogos.

Muita gente diz que o Real Madrid é defensivo porque usa os contra-ataques. Uma coisa não tem necessariamente a ver com a outra. O Real passa mais tempo com a bola no campo de ataque do que na defesa. Os contra-ataques existem mais pela característica dos atletas.

A capacidade é ser veloz quando os adversários oferecem espaços. A facilidade é de usar o espaço vazio para fazer gols. Na campanha da décima Liga dos Campeões, 27% dos gols foram de contra-ataques. Um gol a cada quatro.

A seleção de 70 era assim. Jogava com a bola no pé, praticava futebol arte, mas marcou 15 de seus 19 gols em saídas rápidas da defesa para o ataque.

Alguns dos times mais bonitos da história eram perfeitos contra-atacando. O São Paulo dos menudos era assim e foi campeão paulista de 85, ganhou o Brasileirão do ano seguinte, embora um pouco mudado.

A versão 1992 do Tricolor, de Telê Santana, tinha repertório variado, entre a posse de bola e o contra-ataque. A velocidade era uma de suas armas e a equipe era linda de se ver jogar.

O fato de o Real Madrid vencer este ano não significa a morte do estilo de posse de bola e marcação por pressão, do Barcelona e do Bayern. Significa apenas que o Real Madrid foi melhor nesta temporada.

Mereceu ganhar a décima liga dos campeões, mas não representa uma tendência.

Há várias maneiras de jogar bem.

O Real Madrid foi perfeito.

Se você quiser saber como vai ser o Brasil na Copa, saiba que Felipão gosta mais do que vê do Real Madrid do que do Barcelona ou do Bayern de Guardiola.

Não é pecado.”

(Paulo Vinicius Coelho)

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“Em Kinshasa, uma confusão entre torcedores que jogavam objetos no gramado, inconformados com a derrota de seu time, o local ASV Club, para o Mazembe, que os brasileiros conheceram em 2010 ao eliminar o Inter do Mundial de clubes, terminou em violência policial, no desabamento de um muro e na morte de 15 torcedores. Aconteceu no domingo passado, não noano passado, no Congo.

Você já imaginou se fosse em Roma, Boston, Londres, Paris ou Berlim? Mas foi na África, tudo bem, esperar o quê? Já morrem tantos de fome que 15 a mais, 15 a menos, que diferença faz?

A tragédia não recebeu por aqui nem 1/10 da cobertura que se deu, por exemplo, quando três pessoas morreram na maratona de Boston, em 2013, vítimas de um atentado.

Três vítimas brancas na mais inglesa das cidades dos Estados Unidos da América! É notícia pra chuchu! Vá lá que aquilo que nos é mais próximo tenha maior significado e importância.

Mas não só temos raízes na África que não encontramos na terra de Tio Sam como Kinshasa dista 7.436 quilômetros de Brasília, só um pouco mais que os 6.893 que a separa de Boston. Mesmo assim, pouco se tocou no assunto na segunda, a não ser como mero registro e vamos em frente.

Uma banana no gramado repercute mais, até porque os negros são outros, bem pagos, quase brancos. Não somos Nem equânimes.”

(…)

(Juca Kfouri)

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“Tive a oportunidade única de pas­sar vários dias em três partes diferentes da República Popular Democrática da Coreia, mais comumente referida apenas como Coreia do Norte. Aqui estão algu­mas coisas sobre o país que podem sur­preendê-lo.

1. Os americanos não são odiados, mas bem-vindos

O alto nível de consciência de classe dos coreanos faz com que eles não con­fundam o povo estadunidense com o seu governo. Os coreanos não fazem segredo quanto ao seu desprezo pelo imperialis­mo dos EUA, mas se você diz que é um estadunidense, a conversa geralmente gira muito mais em torno de temas cul­turais ou relacionados a esportes do que de política. Na biblioteca The Grand Pe­ople’s Study House, localizada em Pyon­gyang, o CD mais popular é o Greatest Hits, dos Beatles, embora Linkin Park também seja bastante solicitado entre a juventude local. Os jovens parecem fasci­nados pela NBA e sabem muito mais so­bre a liga de basquete e seu campeonato do que apenas sobre o ex-jogador Den­nis Rodman.

2. Fronteira e alfândega

Muitos dos ocidentais que viajaram de Pequim para Pyongyang comigo es­tavam preocupados que o procedimen­to de imigração seria longo e intenso. Todos pareciam muito surpresos que os passaportes foram carimbados, sem perguntas, e que apenas um punhado de passageiros teve alguns itens de su­as malas olhados.

Leia também: Relatos de 9 dias em Havana, Cuba

Antes de viajar, é al­tamente recomendável por empresas de turismo que as pessoas não tragam qualquer livro sobre a Guerra da Coreia ou itens que estampem bandeiras dos Estados Unidos. Este pode ser um con­selho sólido, mas a imigração realmente não parece muito preocupada com o que é trazido para o país.

3. Pyongyang é bonita, limpa e colorida

Provavelmente uma das cidades mais lindas do mundo, Pyongyang está incrivel­mente bem conservada. Considerando­-se que toda a cidade foi bombardeada pelas forças dos EUA na Guerra da Co­reia (que eles chamam de Guerra de Li­bertação Pátria) e que apenas dois edi­fícios permaneceram em pé em 1953, é uma realização impressionante. As es­tátuas e grandes edifícios são inspira­dores, assim como são os grandes espa­ços verdes, onde você pode ver as pesso­as relaxando. Há muitos novos prédios surgindo em toda a cidade, mas mesmo os que são evidentemente mais antigos são bem mantidos. Costuma-se dizer que Pyongyang durante a noite é escura, e embora possa ser comparada a uma ci­dade ocidental, ela tem belas luzes que iluminam muito o centro da cidade.

4. Cabelo a la Kim Jong-Un

Quando eu estava a caminho do aero­porto para o centro da cidade, vi apenas um homem usando o “corte de cabelo a la Kim”, que, aliás, não me pareceu na­da bom. Os rumores quanto à obrigato­riedade de todos os homens da Coreia do Norte em idade universitária terem de usar o mesmo corte do líder norte-core­ano surgiram após a BBC e a Time vei­cularem a história de um tabloide sul-co­reano. Essa história não só não é verda­de, assim como também não é a alegação de que os homens no país só teriam um número seleto de cortes para escolher na barbearia, sancionado pelo Estado.

5. Norte-coreanos sorriem muito

A pergunta que você deve estar se per­guntando é: “Mas eles não sorriem por­que são forçados a isso?”. Isso seria um grande feito se para todos os risos genu­ínos que eu compartilhei com os corea­nos, eles estiverem apenas rindo “para inglês ver”.

6. Ideologia monolítica não significa personalidade monolítica

Este é um bom lembrete quanto ao fato de individualismo e individualidade não serem a mesma coisa. Na realidade, ob­servando as pessoas interagirem umas com as outras me deu a impressão que a diversidade de tipos de personalidade é tão forte quanto o é no “liberado” Oci­dente. As pessoas têm uma divergência de interesses, desde esportes à cultura, e são livres para escolher o que eles gostam e desgostam.

7. As pessoas se vestem incrivelmente bem no país todo

Até mesmo no campo, os coreanos se vestem de maneira muito digna. Não houve um só lugar que viajei onde as pes­soas parecessem malvestidas ou vestindo roupas que parecessem ser velhas. Ho­mens e mulheres também não vestem o mesmo estilo de roupa, como somos con­dicionados a pensar. É comum ver mu­lheres usando roupas bem brilhantes, in­cluindo ternos e vestidos tradicionais co­reanos de corpink. Os homens usam gra­vata, camisas de cola e ternos, mas tam­bém não é incomum vê-los em roupas mais casuais, como moletons, dependen­do da ocasião.

8. As crianças começam a aprender inglês aos 7 anos

O domínio da língua inglesa, particu­larmente pela geração mais nova, im­pressiona. Nas décadas anteriores, a época de aprender inglês era no cole­gial. Mas isso foi mudado para a tercei­ra série do ginásio agora. Embora muitas crianças sejam tímidas (no final das con­tas, elas não veem muitos estrangeiros), muitas delas apertaram minhas mãos e até mesmo trocaram poucas palavras em inglês comigo. Entre as línguas popula­res estudadas no colegial estão o chinês e o alemão.

9. O turismo será incentivado num futuro próximo

Um dos aspectos da economia que se­rão priorizados no futuro parece ser o tu­rismo. No momento, todo o aeroporto de Pyongyang está em obras – e sendo ex­pandido. Os coreanos estão dispostos a se abrir para o mundo, mas também es­tão certos de fazerem isso de maneira di­ferente da dos chineses (após ter estado em Pequim e visto a onipotência de al­guns dos piores aspectos da cultural oci­dental, isso os dá toda a razão para te­rem cuidado a esse respeito). A compa­nhia Air Koryo, a qual foi concedida ape­nas 1-estrela pela companhia SkyTrax, na realidade, foi muito melhor em ter­mos de serviço e conforto do que ao me­nos um dúzia de outras companhias aé­reas que já voei. Eles têm uma nova fro­ta de aviões russos que voam entre Pyon­gyang e Pequim, proveem entretenimen­to a bordo ao longo de toda a viagem (o desenho para crianças Clever Raccoon Dog é hilário) e servem um “hambúr­guer” (que não é muito bom, mas comí­vel) e uma variedade de bebidas (café, chá, cerveja e suco). Toda a experiência valeria no mínimo 3 estrelas se tivésse­mos que avaliá-la para valer.

10. Coreanos estão dispostos a falar sobre seu país de maneira aberta

As pessoas estão bem abertas para fa­lar a respeito dos problemas que o país enfrenta e não se furtam em discutir al­guns dos mais difíceis aspectos da vida. Por exemplo, eles falam sobre a “Marcha Árdua” (pense no “Período Especial” em Cuba) quando seca, fome e enchentes so­madas à perda da maioria dos parceiros comerciais do país causaram grandes re­trocessos ao país que até os anos de 1980 tinha uma qualidade de vida mais alta do que a da sua vizinha Coreia do Sul. Eles também discutem as narrativas em rela­ção à Guerra da Coreia e estão dispostos a um melhor relacionamento com a Co­reia do Sul na esperança que aconteça a reunificação. Entretanto, também são bem firmes quanto ao fato de que nunca irão renunciar seus princípios socialistas para facilitar essa reunificação.

11. Cerveja e microcervejarias

Quase todos os distritos do país agora têm uma cervejaria local que provê cer­veja para os arredores. Há uma varieda­de de diferentes tipos que são bebidas por todo o país e a maioria das refeições são servidas com uma pequena quantidade de cerveja. No Kim Il Sung Stadium, on­de a maratona de Pyongyang começou e terminou não era incomum ver locais be­bendo cerveja enquanto observavam as partidas-exibição entre os times de fute­bol do país. Pense no estádio dos Yanke­es, sem a agressividade do público.

12. Tabloides

Havia ao menos 100 estaduniden­ses ao mesmo tempo que eu em Pyon­gyang, em grande parte devido aos cor­redores amadores estrangeiros que tive­ram a permissão de competir pela pri­meira vez na maratona. Um casal disse ser esta sua segunda visita ao país, após o terem visitado no ano passado. Eles mencionaram como estavam um pou­co asssustados quando vieram pela pri­meira vez porque isso foi bem depois de uma história que tinha ganhado as man­chetes sobre Kim Jong – um ter mata­do sua namorada e outras pessoas por terem aparecido em uma fita pornô. O casal falou de como eles entraram em uma ópera em Pyongyang e assim que sentaram perceberam que a mesma mu­lher que devia estar morta estava sen­tada bem na frente deles. De fato, uma walking dead. Outras histórias recentes que saíram na mídia ocidental via tab­lóides sul-coreanos em relação a execu­ções em massa em estádios ou ao tio de Kim Jong – um ter servido de alimen­to para um bando de cachorros famin­tos também são ditas como sem senti­do por ocidentais que viajam frequente­mente para lá e conhecem bem a situa­ção do país. Isto não é para nada dizer sobre a existência de campos de reedu­cação política ou prisões, mas para fa­lar sobre uma campanha de demoniza­ção contra o país que o distorce comple­tamente e que não ajuda em nada o po­vo coreano

13. Os coreanos não hesitaram em fazer com que você se divirta com eles

Aconteceu uma série de eventos orga­nizados em Pyongyang por ocasião do aniversário de Kim Il Sung, que é um fe­riado nacional quando as pessoas ficam dois dias sem trabalhar. Alguns foram or­ganizados publicamente, como as mass dances, em que centenas de pessoas dan­çam em grandes praças ao som de mú­sicas populares coreanas. Outros even­tos envolveram famílias no parque fazen­do piquenique enquanto crianças com­pravam sorvete e vovós bêbadas dança­vam de forma hilária porque tinham tido muito soju caseiro. Mas, como em qual­quer outro Estado autoritário, você tem que participar! Intimidar-se não é uma opção, já que eles vão te puxar pelo bra­ço e te ensinar a dançar todos os passos mesmo que eles próprios não os estejam fazendo de maneira correta.

Em resumo, eu achei os coreanos do Norte uns dos mais acolhedores e mais autênticos seres humanos que já tive a chance de interagir. Seria tolo referir-se ao país como um “paraíso dos trabalha­dores” devido à profundidade de pro­blemas que enfrenta. Como em todas as sociedades, existem aspectos positi­vos e negativos. Entretanto, consideran­do que eles têm superado séculos de do­minação imperial, a perca de quase um quarto de sua população na Guerra da Coreia e continuam a manter seu siste­ma social diante de um continuado esta­do de guerra, eles têm se dado tremen­damente bem. Os sucessos em educa­ção gratuita por meio da Universidade, a não existência de sem-teto e um po­vo orgulhoso e digno deveriam ser apre­sentados no sentido de se ganhar uma imagem do país mais completa e com mais nuances.

Tenho de dizer que a Coreia do Norte pintada pela mídia ocidental na verdade fala mais sobre a eficiência de nosso aparato de propaganda e de téc­nicas de lavagem cerebral do que do de­les. O fato que eu até tenho que escrever sobre as coisas surpreendentes que tes­temunhei é a evidência da séria falta de compreensão que temos sobre o país. Os problemas enfrentados pela Coreia nun­ca são contextualizados como deveriam ser – como uma nação oprimida com o objetivo de libertar-se da servidão das grandes potências que têm a intenção de devorar cada Estado restante livre de uma unipolaridade que morre.

Ah, e eu quase estava esquecendo so­bre as armas nucleares! Bem, vamos considerar se os militares norte-core­anos estivessem realizando exercícios militares anualmente ao largo da cos­ta de Nova Iorque, simulando o bom­bardeio de Manhattan e a ocupação da totalidade do país, o qual já controla a metade ocidental.

Não seria sensato dado o contexto pa­ra os estadunidenses desenvolverem um arsenal nuclear? Os coreanos não são fa­mintos por guerra ou até mesmo “obce­cados” com o exército ou forças militares. No entanto, dado a forma como a situa­ção na Líbia foi jogada, eles ainda estão mais convencidos – com razão – de que a única razão pela qual o seu Estado inde­pendente continua a existir é devido ao Songun (a política “militares em primei­ro lugar”) e a existência de capacidades nucleares. Para ter certeza, eles não têm a intenção de usá-lo a menos que os colo­quem na posição de ter de fazê-lo.

É meu desejo sincero que exista um continuado intercâmbio cultural e inter­pessoal no futuro próximo entre as pes­soas da Coreia do Norte e os países oci­dentais. Praticamente todas as pessoas que viajaram comigo de volta a Pequim estavam em êxtase de quão diferente sua experiência foi, comparado ao que eles esperavam. Eles – como eu – ganharam muito com a experiência humanizado­ra de interagir com os coreanos. Embora os ocidentais sejam relativamente livres para viajar muito mais do que os cida­dãos da Coreia do Norte, é irônico como os coreanos aparentemente sabem muito mais sobre nós do que nós sabemos so­bre eles. Isso terá que mudar nos próxi­mos anos.”

(Marcel Cartier)

Via http://www.pragmatismopolitico.com.br/

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“Senna tinha tudo o que se poderia querer num herói.

Para o consumo externo: era brasileiro, e ainda que o país já tivesse história na F-1, pilotos daqui eram sempre vistos pela Europa como exóticos, vencedores pelo simples fato de terem chegado lá.

Para o consumo interno: era o único brasileiro a ganhar alguma coisa naqueles meados e fins de anos 80, início dos 90. A seleção enfileirava fiascos, o vôlei era incipiente, a inflação galopava, os planos econômicos se sucediam, as Diretas fracassaram, o complexo de vira-latas atingia níveis estratosféricos.

Era atlético, numa época em que vários pilotos fumavam e tantos outros eram barrigudos. Era bonito perto de Piquet, Mansell e Prost.

Aliás, era o mais jovem da turma, o que sempre desperta simpatia.

Falava bem, e sua entrevista ao “Roda Viva”, reprisada na semana passada, faz muitos esportistas de hoje assemelharem-se a zumbis lobotomizados por assessores de imprensa.

Tinha noção do valor de manter uma boa imagem.

Numa era pré-internet e em que ligações internacionais eram luxo, telefonava para as Redações dos jornais após cada etapa na F-3 inglesa para relatar o resultado e dar suas impressões.

Quando na F-1, fazia o bom moço, ainda que não o fosse por completo –nenhum campeão o é. Via Deus na curva, falava na importância de perseguir os sonhos, virou personagem de história em quadrinhos.

E namorou a Xuxa! Quer mais?

No cockpit, tinha um talento natural, dos maiores que a F-1 já viu.

Imagine um piloto estrear por uma equipe pequena e, na sexta corrida, num circuito traiçoeiro como Mônaco, debaixo de chuva torrencial, chegar em segundo lugar.

Imagine chegar à McLaren, ao lado de um bicampeão mundial, e logo no primeiro ano conquistar o título.

Imagine vencer pela primeira vez na F-1, com um carro inferior e pista molhada, no mesmo dia da morte da então grande esperança nacional –Tancredo Neves.

Ou um piloto amargar fracassos em casa, mas um dia vencer diante de seu público contornando as últimas voltas com apenas uma marcha e sair do carro debilitado, amparado por médicos.

Ou largar em quarto numa corrida, cair para quinto, fechar a primeira volta na liderança e vencer com 1min23s (!!) de vantagem.

Era um obcecado pelo sucesso. E possuía as ferramentas, todas elas, para obtê-lo.

Pois este personagem morreu ao vivo, diante de olhos incrédulos do mundo todo. Alguma coisa tinha que estar errada. Heróis não morrem, afinal.

O enredo que transformou Senna em mito dificilmente será repetido.

É único. Deve continuar assim, por mais 20, 40, 60 anos. Mais. Mais.
Mais que o herói possível. Senna foi impossível.”

(Fábio Seixas)

Oleg Konin fez esse quadro em 2012, intitulado Formula Alone, retratando o único desejo dos fãs

Oleg Konin fez esse quadro em 2012, intitulado Formula Alone, retratando o único desejo dos fãs

“É praticamente impossível ser contra a reação de Daniel Alves. Diante do de sempre, ele respondeu com o inusitado. Atirar bananas e imitar macacos são ofensas racistas nada surpreendentes nos estádios de futebol, por mais que devam causar espanto. Acontecem com certa frequência na Europa e nem são privilégio do Velho Mundo, como bem o sabem os jogadores Tinga e Grafite. Superando a mesmice, o deboche espirituoso de Dani Alves, ao devorar o alimento, construiu um momento único, original, desses que já nascem com lugar garantido na eternidade.

Se a altivez debochada de Alves encanta, é difícil ver com o mesmo otimismo a reação de celebridades como Luciano Huck e Angélica, macaqueando (com o perdão do termo) o atacante Neymar Jr. Não apenas por revelar a fome de lucro da indústria cultural, capaz de transformar as manifestações mais espontâneas do indivíduo em mercadorias rentáveis, mas sobretudo pela suposta mensagem antirracismo propagada por tais personalidades.

O pensador Theodor Adorno, lá nos anos 60, advertia seus leitores de como as estrelas vazias são fundamentais para que a Indústria Cultural (termo cunhado por ele e por Horkheimer) consiga manipular seus consumidores. Neymar, Angélica e Huck, para citar três casos, são belos exemplos: nenhum dos três jamais debateu o racismo; nos programas de auditório de Angélica e Huck, jamais houve qualquer preocupação em destacar figuras negras; o próprio Neymar, em entrevista a um importante jornal paulista, declarou nunca ter sofrido racismo justamente por não ser “preto” – um caso de, como tenho dito entre amigos, “não negro por opção”.

Normalmente alheias ao tema, várias celebridades veem na projeção do gesto de Dani Alves uma chance perfeita de, sem entrar em qualquer debate complexo e arriscado, “apoiar uma causa” simpática, colocar-se em evidência e, por fim, seguir sendo personalidades vazias, sem polêmica, sem questionamento, prontas para promover a publicidade de um banco, de uma empresa de telefonia celular ou de qualquer outro produto que as contrate. Não por acaso, ao que tudo indica, a “campanha” que nos chama a todos de “macacos” parece ter sido orquestrada por uma importante agência de publicidade.

Além da pouca sinceridade, que para espíritos românticos já seria motivo suficiente para repudiar Neymar e todo o bando, ainda há problema mais grave: a possibilidade de que o “comer a banana” seja visto com um “deixa pra lá”. No caso de Dani Alves, falamos de um atleta sob pressão: o Barcelona não vem numa campanha das melhores, seu time estava perdendo a partida e, como de costume, as câmeras do mundo estavam voltadas para ele. Ser agredido em público, nessas condições, torna difícil qualquer reação à altura e ele, com presença de espírito invejável e apurada técnica, “tirou de letra”. Contudo, caso a atitude dele se torne “o” exemplo a ser seguido, corre-se o risco de que sejam repudiadas medidas mais duras contra o racismo, necessárias, por exemplo, quando se considera que as vítimas da violência policial são Amarildos, Cláudias, DGs, não os Hucks de olhos claros.

O discurso de que “o racismo está na vítima” e basta “saber ignorar” aplaude Dani Alves de pé, ao mesmo tempo em que não reconhece a defesa das cotas no ensino superior, ignora a desigualdade racial e tergiversa sobre a “democracia racial” em que vivemos.

Em resumo, se por um lado Daniel Alves deu, nas condições a que estava submetido, provavelmente a mais elegante e contundente resposta que torcedores racistas já receberam, por outro é preciso cautela. A sede de transformar tudo em business e a hipocrisia dos que creem em uma suposta igualdade racial (que, se é total no aparato biológico, é nenhuma na vida social) querem transformar o gesto libertador do atleta em mais uma arma de opressão. Mas não deixaremos. Não somos bananas.”

(Henrique Braga) – site http://www.brasilpost.com.br/

Somos todos Lou Reed!

Somos todos Lou Reed!

“Lula é Dilma, Dilma é Lula: Dilma é o pseudônimo de Lula” –a mensagem, propagada incessantemente, produziu os efeitos desejados nas eleições de 2010. Contudo, para além do teatro eleitoral, será verdadeira? Mais que interesse intelectual, a questão tem evidente relevância política quando soam as cornetas do “Volta, Lula!”.

“Volta, Lula!” é a bandeira de uma facção do PT, mas, sobretudo, de setores do alto empresariado, que a difundem com discrição, operando nas sombras. Por motivos distintos, esses dois grupos acreditam que não: Dilma não é Lula. Os petistas engajados no neo-sebastianismo creem que Lula possui “habilidade política” superior, um eufemismo para louvar o desembaraço do ex-presidente na arte da distribuição de fragmentos da máquina pública aos “companheiros”. Os empresários empenhados na mesma campanha, por sua vez, elogiam o “pragmatismo” lulista, que deve ser traduzido como um desprezo básico por qualquer tipo de convicção ideológica –e uma propensão irrefreável a distribuir a bolsa-empresário do BNDES aos magnatas “companheiros”.

De certo modo, uns e outros têm razão. Dilma pode não ser a gerente perfeita, uma lenda que sobrevive apenas entre fanáticos oficialistas, mas conserva uma ética gerencial fundada no conceito de eficiência absolutamente estranha a Lula. A substituição do militante Gabrielli pela administradora Graça Foster na Petrobras é uma prova dramática da diferença. Ao mesmo tempo, Dilma acredita realmente no modelo do capitalismo de Estado. Oriunda do brizolismo, petista da undécima hora, a presidente nutre uma desconfiança fundamental em relação ao mercado. Não é fortuito que, resistindo às pressões de Lula, ela tenha bancado a permanência de um cambaleante Guido Mantega na pasta da Fazenda.

Lula só acredita no que serve às suas conveniências de poder: o ex-presidente pode ser “mercadista” ou “estatista”, conforme as circunstâncias. Dilma também pode ser “mercadista”, mas apenas a contragosto, premida pela conjuntura –ou por Lula. É por isso que a ala “desenvolvimentista” do PT prefere Dilma a Lula. André Singer, um arauto dessa ala, justificou a preferência em coluna publicada na Folha (9/11/13). Caracteristicamente, o texto descrevia uma suposta conspiração dos “donos do dinheiro”, conduzida pela afinada “orquestra” do mercado financeiro (o FMI, a revista “Economist” e a agência Moody’s) contra o indômito governo Dilma. E, como conclusão, sugeria que Lula desempenhava um papel na macabra trama “mercadista”.

Dilma, então, não é Lula, do ponto de vista dos interesses dos magnatas nacionais, dos petistas ocupados noite e dia na colonização do aparelho de Estado e da ala convictamente estatista do PT. Contudo, no que concerne aos interesses da esmagadora maioria dos brasileiros, Dilma é o pseudônimo de Lula pelo simples motivo de que a presidente de direito não exerce a plenitude do poder presidencial. Dilma é Lula no sentido bem preciso de que, nos momentos cruciais, a prerrogativa de decidir repousa nas mãos do presidente de facto.

Lula, o “pragmático”, não Dilma, a “estatista”, deflagrou a política econômica estatista durante seu segundo mandato. O mesmo Lula, não Dilma, deu o sinal de mudança de rota no ano passado, quando a falência do modelo tornou-se evidente para todos (exceto, claro, para os ideólogos “desenvolvimentistas”). Dilma poderia, em tese, ter obtido um grau razoável de independência –mas o fracasso de seu governo impediu que a criatura se libertasse da tutela do criador. Hoje, às vésperas das eleições, tal como há quatro anos, Dilma carece de qualquer lastro político próprio. Num eventual segundo mandato (que o céu nos proteja!), a presidente permaneceria tão refém de Lula quanto sempre foi.

“Volta, Lula”? Lula nunca saiu –como Lula e Dilma asseguram, nesse caso com razão.

(Demétrio Magnoli)

Ah, Dirceu!!

Ah, Dirceu!!