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“Contos de fadas começam com “era uma vez” porque valem para qualquer época. O 7 a 1 do Mineirão terá que ser explicado por gerações e gerações.

Precisamos de um “era uma vez”. “Deutschland, ein Sommermärchen” (Alemanha, um conto de fadas de verão) é o documentário mais bem-sucedido da história do cinema alemão. O diretor Sönke Wortmann foi autorizado a mostrar os bastidores da Copa-2006 onde a Alemanha era anfitriã e terminou em terceiro lugar. Por que o recorde de bilheteria? Porque ali se deu a reinvenção do futebol germânico. Derrotada pelo Brasil em 2002, a Alemanha entendeu que futebol-força já era, tomou coragem e decidiu renovar tudo.

Não é coisa de conto de fadas? O 7 a 1 começou no penta! Os figurantes de “Sommermärchen” são os protagonistas do Mineirazo. Schwensteiger, inexperiente e tímido em 2006, virou líder do massacre de 2014. Klose, agora artilheiro máximo das Copas, assim como Boateng, Özil, Khedira e Podolski não nasceram na Alemanha. Estão no time graças a um projeto cuidadosamente executado para injetar ginga gringa no escrete cadeira-
dura com talentos de dupla nacionalidade.

Repare a ironia. Fada vem de fatum, destino, fatalidade. Enquanto os brasileiros se trancam numa granja na serra gelada, os alemães se divertem e se alongam com professor de yoga numa praia ensolarada da Bahia onde Cabral descobriu o Brasil. Felipão improvisou uma psicóloga, não remunerada. Joachim Löw conta com uma equipe de psicólogos, cientistas e estatísticos que preparam dossiês de 500 páginas sobre cada adversário.

Não é hora de mudar time ou técnico. O Brasil travou. A única coisa 100% aprovada na Copa-2014 é a encantadora hospitalidade do povo brasileiro. A hora é de atualizar o sistema como fazemos com computadores ultrapassados. #VaiBrasil”

(Marcelo Tas)

 

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“Vi vários colegas circulando correntes conspiratórias pela internet após “A Queda”, como ficou conhecido o episódio 7×1 do dia 8 de julho. Tolos. Mal sabem eles que a realidade é muito mais terrível do que essas tentativas falsas de causar burburinho político. Então, decidi contar.

Tomei um café, na noite desta quinta, com uma amiga que ainda estava com ressaca moral por conta do jogo no Mineirão. Ficamos conversando até tarde. Quando retornei, já a altas horas da madrugada, havia um envelope pardo na soleira da minha porta. Por estar cheio, o entregador não conseguiu passá-lo por baixo e ele estava lá, de pé, sem remetente, apenas com meu nome grafado de forma incorreta com “c” ao invés de “k”. Um erro comum, a bem da verdade.

Ao abrir, uma série de documentos, planilhas, cópias de ingressos da Copa do Mundo, fotos de Fernando de Noronha, algumas fitas K7 (pensei, aliás, que elas estavam extintas), mapas em que a Zona Oeste do Rio de Janeiro aparece destacada do resto do país e um DVD.

Uma carta impressa de quatro páginas, provavelmente em um ordinário Times New Roman 12, explicava que aquele material deveria ser usado com sabedoria. O remetente afirmou que confiava a mim o embrulho por causa dos anos em que venho cobrindo, com dignidade, o futebol.

O que não fez sentido. Porque nunca cobri futebol na vida.

Ao lê-la até o final, senti um frio subir pela espinha – daqueles que nós jornalistas sentimos quando estamos diante de nitroglicerina pura. As pernas bambearam e desabei em uma cadeira. A carta explicava que aquilo se tratava do maior escândalo do futebol mundial de todos os tempos. Minha mão tremeu e deixou cair o papel. Fiquei uns bons minutos sem ter forças para abaixar e apanhá-lo.

O DVD traz imagens de um homem alto e calvo entregando uma mala de dinheiro a outro homem também alto e totalmente careca. As planilhas traziam números de contas em paraísos fiscais e as fotos exibiam pessoas de terno rindo enquanto falavam de “goleada histórica”.

Não consegui ler todo o material ainda, mas acho que o povo brasileiro tem direito a saber que a pior derrota futebolística de sua história pode ter sido fruto de uma conspiração. Só assim, talvez, possamos voltar a dormir à noite, trocando a tristeza de um impossível 7 a 1 pela revolta contra as maracutaias políticas. Quiçá acordar o gigante.

Por isso, resumo a explicação trazida na carta. Ela deixa vários buracos, eu sei, mas, por ora, é o que posso revelar:

Uma semana antes de começar a Copa do Mundo, um emissário do Palácio do Planalto reuniu-se com a cúpula da CBF, a comissão técnica e um representante dos jogadores da seleção a portas fechadas em um escritório na praia do Botafogo. Trazia uma oferta presidencial: de que cada um deles teria isenção de impostos pelo resto de suas vidas se ganhassem a Copa, o que – segundo ele – ajudaria a reeleição. O PT iria não apenas aprovar uma lei garantindo isso aos “campeões do Hexa” como também depositaria um adicional de R$ 10 milhões na conta de cada jogador, além de um Honda Civic preto. Por fim, cada um também teria direito a um aperto de mão, um autógrafo e uma foto com o ex-presidente Lula.

Ninguém especificou de onde viriam os recursos. A frase “dane-se que é dinheiro de creches” foi ouvida de relance em uma das conversas reservadas ao final da reunião. Quando saíram, a assistente do emissário palaciano avisou que o senhor Yuich Nishimura estava assobiando impacientemente enquanto aguardava.

A oposição percebeu (graças à alta definição das TVs em HD) que havia algo errado ao constatarem que Dilma Rousseff sorriu de canto de boca quando mandaram que ela tomasse naquele lugar na estreia da seleção no Itaquerão. Leitura labial do mesmo técnico contratado pela Globo conseguiu captar algo como “Sabem de nada, inocentes”.

Descobriu, em pouco tempo, a existência da “mala branca”. E no dia 16 de junho, dois representantes das campanhas de Aécio Neves, do PSDB, e de Eduardo Campos, do PSB, ligaram para o representante dos jogadores. Pediram uma reunião rápida.

Nela, em um boteco pé-sujo ao lado de onde a seleção estava concentrada, solicitaram uma caracu com ovo e canela e dois uísques. Acreditando que um vexame prejudicaria a reeleição, ofereceram sua “mala preta”: o dobro do que o PT prometeu, desde que não houvesse classificação para as oitavas. E que, uma vez eleitos, Aécio ou Campo, não apenas daria isenção tributária vitalícia, mas também permitiria a nacionalização de quaisquer valores depositados no exterior sem imposto algum. Por fim, ofereceram fotos com Fernando Henrique e Marina Silva – mas o representante dos jogadores rapidamente dispensou essa parte da proposta.

Na concentração da seleção, os jogadores não sabiam o que fazer. Parte achou que deveria honrar o acordo com o governo. Parte viu na proposta da oposição uma chance maior. E com um time dividido, a seleção entrou para o jogo do México, quando empataram em 0 a 0.

O único a não querer participar do esquema foi Jô e, por isso, ganhou a antipatia do técnico. Felipão chegou a revelar a jornalistas mais próximos que havia se arrependido de convocar um jogador – que seria, claro, ele.

O pânico se instalou no Planalto. Dilma, em um acesso de raiva, teria mandado sustar o cheque-caução que tinha deixado com a CBF, mas foi demovida por Gilberto Carvalho.

Vendo o risco de ficar fora do mundial precocemente, o governo federal aumentou o cacife, acrescentando um churrascão com Lula com a presença de grupos de pagode da década de 90. O que foi comemorado na Granja Comary.

Em meio às negociação e com medo de ser inquirido sobre o assunto, o técnico da seleção brasileira passou a usar os serviços de um sósia – Wladimir de Castro Palomo – que assumiu seu lugar em aparições públicas. O jornalista Mario Sérgio Conti foi o primeiro a encontrá-lo em um avião entre o Rio e São Paulo, mas não o único. A última vez que Palomo foi usado foi na coletiva dada à imprensa no dia 09 de julho, um dia após a derrota no Mineirão, em que o sósia não falou coisa com coisa. Felipão foi visto, no mesmo horário, em um Centro de Tradições Gaúchas de São Borja.

No intervalo do jogo do Chile, veio uma bomba: um jornalista estava apurando o “leilão” com base em uma denúncia anônima. O time se desestruturou. Com muita dificuldade, conseguiram levar a disputa para as penalidades. Com medo de ser descoberto, Thiago Silva era o mais abalado e chorava compulsivamente a ponto de pedir para não bater. Coube a Júlio César, que participa de um célula do partido comunista revolucionário canadense em Toronto, ir para o sacrifício e garantir que o país passasse às quartas.

O nervosismo latente no ônibus da seleção só desapareceu quando chegou o recado que esse problema estava “resolvido”. Houve calma, mas também temor, pois ninguém sabe como isso de fato foi resolvido. A notícia de acidentes de carro envolvendo jornalistas e da deportação de alguns deles deixou todos apreensivos. Sentiram que a mão invisível do Estado era mais terrível do que imaginavam. Podia estar em todos os lugares.

Para desviar a atenção pública, o governo lançou a Operação Jules Rimet. Sob a justificativa de acabar com um esquema ilegal de venda de ingressos envolvendo a própria Fifa, a Polícia Federal, na verdade, jogou uma cortina de fumaça sobre o caso. Uma isca perfeita para os jornalistas investigativos esportivos que se entreteriam com as descobertas e nem olhariam para a negociação. Figurantes do Zorra Total e de A Praça é Nossa foram contratados para serem “presos” na frente das câmeras como executivos de empresas que nunca ninguém ouviu falar.

Ao mesmo tempo, a carta insinua que o time da Colômbia teria recebido recursos para, uma vez que sua derrota se desenhasse próxima, incapacitar Neymar. O acordo teria sido fechado com o chefe de Estado daquele país, sob a promessa da importação de café colombiano e de DVDs da Shakira a partir de 2015 – caso a oposição seja eleita. Não diz quem teria articulado isso com os colombianos e quanto Zuñiga, que teria executado o plano, ganhou. Também não há documentos tratando do assunto, o que leva a crer que essa parte da história não está embasada em fatos reais.

Dois dias antes da semifinal, chegaram as últimas propostas. Um ministro da República ofereceu a concessão, por 100 anos, de Fernando de Noronha, Lençóis Maranhenses e um terceiro destino turístico à escolha dos envolvidos – que fariam com eles o que quisessem, nos mesmos moldes da antiga administração de Hong Kong pelos britânicos. E afirmou que atuaria diretamente junto ao Vaticano para a beatificação dos jogadores ainda em vida – além, é claro, das promessas financeiras já acordadas, fotos e churrascão com pagode.

Um ex-ministro tucano trouxe a proposta da oposição: a independência da Barra da Tijuca como um país a ser administrado pelos presidentes da CBF. O próprio Brasil articularia junto à ONU a admissão desse membro e firmaria um acordo para que esse novo país continuasse administrando o futebol do vizinho. Os jogadores também teriam direito a uma porcentagem nos royalties do pré-sal, determinada por lei, ao lado da educação, e uma foto com o Luciano Huck. Mais uma vez a oferta da foto foi declinada.

Estranhamente, já no final da carta apareceu uma estranha proposta do presidenciável e pastor Everaldo, prometendo que todos iriam para o céu se perdessem e para inferno caso não dessem uma prova contumaz de sua dedicação ao Senhor, largando o futebol no meio do campeonato.

Muito, muito assustada com a possibilidade de herdar os moradores da Barra da Tijuca, ao que tudo indica a CBF optou pela proposta governamental. Enfim, os jogadores fariam de tudo para golear a Alemanha.

A carta se encerra de maneira abrupta, com uma frase sem nexo sobre racionamento de falta de água e de energia elétrica no segundo semestre e a presença de Teletubbies.

Contudo, na cópia do contrato assinado entre governo, jogadores, comissão técnica e CBF, documento que compõe o dossiê a mim confiado, a última cláusula exige que, para o acordo ter valor, a entrada de Mick Jagger deveria ser terminantemente proibida no Mineirão.

Caso contrário, jogadores e técnico não teriam como se responsabilizar com o que poderia acontecer.”

(Leonardo Sakamoto)

 

Via http://www.pragmatismopolitico.com.br/

Prólogo: Essa brincadeira enigmática Xico Sá fez na final do paulista de 2009 entre Santos e Corinthians.

O finalista da Copa 2014 tem características peculiares:
– O grupo é sólido e conciso, em que todas as posições tem jogadores de destaque em fortes clubes europeus
– O goleiro foi contestado por vários defeitos, talvez por viver à sombra de ídolos no passado. Mas hoje é um grande arqueiro
– O lateral-direito continua uma incógnita para boas atuações e estatura não é o forte. O ala esquerda veio sob forte desconfiança, mas vem dando conta do recado.

– Um dos zagueiros marcou dois gols de bola parada nessa copa e foi o melhor avaliado nas quartas

– Os volantes se misturam na função de defender e atacar. E têm poder de chegada com chutes de fora da área. Ali não tem jogador fixo.
– Os meias são rápidos e também voltam para marcar. Houve desfalques por motivos generalizados

– Um dos que atacam pelo lado ainda é novo e com certeza despontará nas próximas edições. Ele já é referência no clube no qual atua.

– O centroavante (posição quase extinta hoje) já tem certa idade e faz muitos gols. Mas nesta edição ainda não desencantou.

– O técnico, turrão, ‘inventor’ e de longa data no comando, dá a entender que deixará o cargo após a copa

– A seleção está acostumada a vencer a competição, porém nos últimos anos têm ficado no quase, com derrotas em jogos que era favorita.

E aí?  

 

“A decisão do sábado entre Real Madrid e Atlético reuniu o nono colocado no ranking da posse de bola contra o 14º. A temporada 2013/14 foi totalmente diferente das últimas.

Foram mais felizes os times verticais, de ligações mais rápidas entre defesa e ataque, força nas bolas paradas e contra-ataques velozes.

Não significa que sejam times de futebol feio nem defensivo.

O Real Madrid marcou 160 gols em 60 partidas na temporada.

O melhor ataque da Europa foi o campeão da Liga dos Campeões. Venceu na final a melhor defesa da liga espanhola e da Liga dos Campeões.

O técnico Carlo Ancelotti mereceu durante muitos anos a alcunha de retranqueiro. Em Munique, antes da semifinal contra o Bayern, ouviu uma pergunta sobre catenaccio e vestiu a carapuça: “Para um italiano, essa não é uma palavra feia.”

Nem bonita.

O melhor ataque da história da Premier League, o Inglês da era moderna, pertence ao Chelsea, campeão inglês de 2010 sob o comando de Ancelotti: 103 gols em 38 jogos.

No sábado, o Real Madrid chegou a 41 gols em 13 jogos da Champions League, recorde nas campanhas com 13 partidas -o Barcelona de 2000 marcou 45 vezes em 17 jogos.

Muita gente diz que o Real Madrid é defensivo porque usa os contra-ataques. Uma coisa não tem necessariamente a ver com a outra. O Real passa mais tempo com a bola no campo de ataque do que na defesa. Os contra-ataques existem mais pela característica dos atletas.

A capacidade é ser veloz quando os adversários oferecem espaços. A facilidade é de usar o espaço vazio para fazer gols. Na campanha da décima Liga dos Campeões, 27% dos gols foram de contra-ataques. Um gol a cada quatro.

A seleção de 70 era assim. Jogava com a bola no pé, praticava futebol arte, mas marcou 15 de seus 19 gols em saídas rápidas da defesa para o ataque.

Alguns dos times mais bonitos da história eram perfeitos contra-atacando. O São Paulo dos menudos era assim e foi campeão paulista de 85, ganhou o Brasileirão do ano seguinte, embora um pouco mudado.

A versão 1992 do Tricolor, de Telê Santana, tinha repertório variado, entre a posse de bola e o contra-ataque. A velocidade era uma de suas armas e a equipe era linda de se ver jogar.

O fato de o Real Madrid vencer este ano não significa a morte do estilo de posse de bola e marcação por pressão, do Barcelona e do Bayern. Significa apenas que o Real Madrid foi melhor nesta temporada.

Mereceu ganhar a décima liga dos campeões, mas não representa uma tendência.

Há várias maneiras de jogar bem.

O Real Madrid foi perfeito.

Se você quiser saber como vai ser o Brasil na Copa, saiba que Felipão gosta mais do que vê do Real Madrid do que do Barcelona ou do Bayern de Guardiola.

Não é pecado.”

(Paulo Vinicius Coelho)

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“Em Kinshasa, uma confusão entre torcedores que jogavam objetos no gramado, inconformados com a derrota de seu time, o local ASV Club, para o Mazembe, que os brasileiros conheceram em 2010 ao eliminar o Inter do Mundial de clubes, terminou em violência policial, no desabamento de um muro e na morte de 15 torcedores. Aconteceu no domingo passado, não noano passado, no Congo.

Você já imaginou se fosse em Roma, Boston, Londres, Paris ou Berlim? Mas foi na África, tudo bem, esperar o quê? Já morrem tantos de fome que 15 a mais, 15 a menos, que diferença faz?

A tragédia não recebeu por aqui nem 1/10 da cobertura que se deu, por exemplo, quando três pessoas morreram na maratona de Boston, em 2013, vítimas de um atentado.

Três vítimas brancas na mais inglesa das cidades dos Estados Unidos da América! É notícia pra chuchu! Vá lá que aquilo que nos é mais próximo tenha maior significado e importância.

Mas não só temos raízes na África que não encontramos na terra de Tio Sam como Kinshasa dista 7.436 quilômetros de Brasília, só um pouco mais que os 6.893 que a separa de Boston. Mesmo assim, pouco se tocou no assunto na segunda, a não ser como mero registro e vamos em frente.

Uma banana no gramado repercute mais, até porque os negros são outros, bem pagos, quase brancos. Não somos Nem equânimes.”

(…)

(Juca Kfouri)

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A Mercedes, além de liderar a temporada da Fórmula 1, patrocina a seleção alemã, que virá tentar o tetra no Brasil em alguns dias. Lembrando o clipe Seven Nation Army, do White Stripes, foi lançada uma propaganda do novo modelo da marca – WM 2014 – ao som de Not Giving In, do grupo Rudimental. É possível notar jogadores como Neuer, Lahm, Gotze, Khedira e um tímido Mario Gomez ao fundo. Coincidência?

retirado do http://www.brainstorm9.com.br/

“Senna tinha tudo o que se poderia querer num herói.

Para o consumo externo: era brasileiro, e ainda que o país já tivesse história na F-1, pilotos daqui eram sempre vistos pela Europa como exóticos, vencedores pelo simples fato de terem chegado lá.

Para o consumo interno: era o único brasileiro a ganhar alguma coisa naqueles meados e fins de anos 80, início dos 90. A seleção enfileirava fiascos, o vôlei era incipiente, a inflação galopava, os planos econômicos se sucediam, as Diretas fracassaram, o complexo de vira-latas atingia níveis estratosféricos.

Era atlético, numa época em que vários pilotos fumavam e tantos outros eram barrigudos. Era bonito perto de Piquet, Mansell e Prost.

Aliás, era o mais jovem da turma, o que sempre desperta simpatia.

Falava bem, e sua entrevista ao “Roda Viva”, reprisada na semana passada, faz muitos esportistas de hoje assemelharem-se a zumbis lobotomizados por assessores de imprensa.

Tinha noção do valor de manter uma boa imagem.

Numa era pré-internet e em que ligações internacionais eram luxo, telefonava para as Redações dos jornais após cada etapa na F-3 inglesa para relatar o resultado e dar suas impressões.

Quando na F-1, fazia o bom moço, ainda que não o fosse por completo –nenhum campeão o é. Via Deus na curva, falava na importância de perseguir os sonhos, virou personagem de história em quadrinhos.

E namorou a Xuxa! Quer mais?

No cockpit, tinha um talento natural, dos maiores que a F-1 já viu.

Imagine um piloto estrear por uma equipe pequena e, na sexta corrida, num circuito traiçoeiro como Mônaco, debaixo de chuva torrencial, chegar em segundo lugar.

Imagine chegar à McLaren, ao lado de um bicampeão mundial, e logo no primeiro ano conquistar o título.

Imagine vencer pela primeira vez na F-1, com um carro inferior e pista molhada, no mesmo dia da morte da então grande esperança nacional –Tancredo Neves.

Ou um piloto amargar fracassos em casa, mas um dia vencer diante de seu público contornando as últimas voltas com apenas uma marcha e sair do carro debilitado, amparado por médicos.

Ou largar em quarto numa corrida, cair para quinto, fechar a primeira volta na liderança e vencer com 1min23s (!!) de vantagem.

Era um obcecado pelo sucesso. E possuía as ferramentas, todas elas, para obtê-lo.

Pois este personagem morreu ao vivo, diante de olhos incrédulos do mundo todo. Alguma coisa tinha que estar errada. Heróis não morrem, afinal.

O enredo que transformou Senna em mito dificilmente será repetido.

É único. Deve continuar assim, por mais 20, 40, 60 anos. Mais. Mais.
Mais que o herói possível. Senna foi impossível.”

(Fábio Seixas)

Oleg Konin fez esse quadro em 2012, intitulado Formula Alone, retratando o único desejo dos fãs

Oleg Konin fez esse quadro em 2012, intitulado Formula Alone, retratando o único desejo dos fãs