Arquivo de Abril, 2014

Clarice querida,

O mundo está mudando rápido. Bem mais rápido que as nossas escolas. Há tantas delas que ainda não perceberam que este mundo internético em que hoje vivemos é radicalmente diferente do mundo desconectado de algumas poucas décadas atrás e que nossa Educação agora pode e precisa ser muito melhor.

Grandes ideias não faltam: escolas na nuvem na Índiaaulas sem turmas nem professores em Portugalsalas-de-aula invertidas nos Estados Unidosbrinquedos que ensinam crianças a programar computadores na Inglaterramilhares de pessoas do mundo todo fazendo juntas cursos de nível superior!

Mas é preciso querer ver a necessidade de mudar, e isso demora. Por mais que eu esteja otimista, não acho que os anos que te restam na escola sejam tempo suficiente para essa onda de renovação se espalhar pelo Brasil e chegar à tua sala-de-aula.

Vai ser por pouco… Você é parte da última geração de alunos da escola do passado. Ou seja, alunos de um modelo de educação igualzinho ao que eu tive, e que também foi o mesmo dos teus avós, teus bisavós, teus trisavós…

Mas se não dá para evitar que as manhãs da tua infância sejam gastas em aulas chatas e desestimulantes, você pode pelo menos ficar alerta aos defeitos desse modelo. Assim, enquanto você aproveita o que a escola pode te oferecer de bom, vai conseguir impedir que ela te ensine algumas coisas que a mim custaram muitos anos para desaprender.

Não deixe que a escola te ensine que conhecimentos podem ser compartimentados, separados em caixinhas, isolados uns dos outros.

Na escola do passado, a matemática acaba quando começa a física e a geografia acaba quando começa a história. No mundo, há biologia no esporte, matemática na música, história na literatura, gramática na programação de computadores… Por isso, depois de ver algo de perto, dê sempre um passo para trás, perceba as relações, enxergue o todo.

Não deixe que a escola te ensine que alguns conhecimentos são mais importantes que outros.

Na escola do passado, para cada aula de artes há duas de geografia e para cada uma de geografia há duas de matemática. Música, artes plásticas, esportes, religião, filosofia são tratados como matérias de “segundo time”. Quantos grandes artistas e esportistas foram vistos como maus alunos e forçados a abandonar seus talentos porque o conhecimento que lhes interessava não era o mesmo que interessava à escola! Persiga teus interesses mesmo que eles não interessem a mais ninguém.

Não deixe que a escola te ensine que há um momento específico para aprender cada coisa.

Na escola do passado, quem não consegue acompanhar a turma é tido como um fracassado e quem quer avançar mais rápido é freado, impedido. Ela exige que todos aprendam o mesmo ao mesmo tempo. Mas as pessoas não são todas iguais. Você pode ter mais facilidade que os colegas em um determinado assunto e menos em outro. Não deixe que te empurrem nem que te segurem. Respeite teu próprio ritmo de aprendizado.

Não deixe que a escola te ensine a decorar.

Ao contrário, esqueça tudo que puder. O homem dominou o planeta porque foi capaz de fabricar ferramentas que estenderam os limites das nossas mãos e pés. Agora, fomos ainda mais além e fabricamos ferramentas que estendem os limites do nosso cérebro. Não precisamos mais desperdiça-lo usando-o como um depósito de nomes, datas e fórmulas; hoje podemos aproveitar todo o potencial dele para analisar, criticar e refletir o mundo de informações que podemos acessar com um clique. A Internet é o teu HD, o cérebro é o teu processador

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Não deixe que a escola te ensine a te contentar com pouco.

Na escola do passado, as consequências de tirar nota 10 ou nota 7 são as mesmas. O aluno excelente passa de ano da mesma forma que o mediano, com, no máximo, um elogio da professora. Assim, aos poucos os alunos vão ficando satisfeitos em “passar por média”. Nunca fique contente com a média. Dê teu melhor sempre, em tudo o que fizer (inclusive nesses poucos anos que ainda te restam na escola do passado). No mundo, ao contrário da escola, a excelência faz muita diferença.

Não deixe que a escola te ensine a acreditar que ela é suficiente.

A escola do passado lamentavelmente abdicou da missão de preparar os alunos para o futuro e se limita a tentar prepará-los para o vestibular ou o ENEM. Mas a tua vida produtiva começa exatamente depois desse ponto e para ser bem sucedida nela você precisará de muito mais do que ciências, matemática, português, história e geografia. O futuro vai exigir que você tenha uma boa noção dos teus direitos e deveres para cumprir teu papel de cidadã, conheça um pouco de economia para saber gerenciar teu dinheiro, aprenda sobre empreendedorismo para fazer tuas ideias virarem realidade, tenha consciência global para compreender teu lugar no mundo, domine a Internet enquanto ferramenta de comunicação e muito mais. Há muitos conhecimentos que não estão na escola. Procure-os onde estiverem.

john lennon

Não deixe que a escola te ensine que provas são capazes de medir a tua capacidade e inteligência.

A história está repleta de gênios que foram tidos como maus alunos. Eles eram considerados incapazes nas suas escolas porque estavam à frente delas e, portanto, não podiam ser medidos pelos seus testes. As provas da escola do passado servem para provar quem está mais adequado ao mundo do passado.

Não deixe que a escola te ensine que você não tem nada a ensinar.

Na escola do passado os alunos são separados em séries de acordo com suas faixas etárias e isso praticamente impede a interação entre idades diferentes. Colegas um pouco mais velhos têm muito a te ensinar e, o que é ainda mais importante, os mais novos têm muito a aprender contigo. E ensinar é a forma mais eficiente de aprender. Quando um professor detém o monopólio do ensino, ele te rouba inúmeras oportunidades de aprender ensinando e ensinar aprendendo.

Não deixe que a escola te ensine que errar é ruim.

Provas fazem isso o tempo todo, sem que os alunos percebam. Do jeito que são feitas, elas servem apenas para apontar e punir nossos erros e desperdiçam a oportunidade de nos ajudar a aprender com eles. O resultado é que aos poucos vamos nos acostumando a não arriscar e a evitar erros a todo custo. Não há nada pior para o aprendizado do que o medo de errar. Erre! Erre de novo! Erre à vontade. Erre quantas vezes forem necessárias até acertar.

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Não deixe que a escola te ensine a ser apenas consumidora de ideias.

A escola do passado se limita a ruminar as ideias dos outros. Diariamente, aula após aula, os alunos mastigam, engolem e digerem um enorme cardápio de informações. Não há nenhum espaço para que eles gerem conhecimento, produzam pensamentos, criem ideias, somem. Os alunos são tratados como se fossem incapazes disso e logo se convencem dessa incapacidade. O mundo do futuro é o mundo da troca. Nele, os bem sucedidos não serão os que forem capazes de acumular mais ideias, mas os que forem capazes de distribuir mais. Escreva, desenhe, cante, dance, filme, blogue, fotografe, pinte e borde. Crie, produza, pense, gere, compartilhe.

E o mais importante de tudo, minha filha: não deixe que a escola te ensine que aprender é a mesma coisa que ser ensinado.

Toda criança nasce uma esponjinha de conhecimento ávida para absorver os comos e os porquês de tudo que vê. Essa curiosidade sem fim, essa fome de aprender costuma durar até o exato momento em que ela passa pela porta da sala de aula da primeira série da escola do passado. É nesse momento que as crianças são convencidas que aprender não é experimentar, sentir e sujar as mãos de terra ou tinta, como faziam até agora, mas sim sentar silenciosamente em cadeiras alinhadas e ser ensinado por um professor que é o dono de todo o saber e que decide sozinho a hora de começar e de parar de estudar cada assunto. O aprendizado não vem mais da interação da própria criança com o objeto que ela está conhecendo. Agora, ele é “transferido”. A criança não faz mais perguntas, ouve respostas. A busca do conhecimento não começa mais nas interrogações dos alunos, mas nas afirmações do professor; o estudo não mais se inicia na curiosidade, mas na autoridade. A criança não está mais no comando do seu aprendizado, ela não é mais um sujeito ativo no ato de aprender, é um sujeito passivo do ato de ensinar do professor. Em resumo, a criança não mais aprende, é ensinada. Não abra mão da direção da tua vida. Viver é aprender e você tem autonomia (ou seja, a liberdade e a responsabilidade) para decidir o que aprender e, portanto, como viver. Não a ceda a ninguém.

Se você conseguir impedir a escola de te ensinar essas coisas, vai acabar descobrindo que vida escolar é diferente de vida de aprendizado. E então, terá a vida inteira para desfrutar dessa incrível Era do Conhecimento que está apenas começando.

Te amo.

Teu Pai

(Renato Carvalho)

Mais opiniões em http://rescola.com.br/

O artista Harvezt criou uma página no flickl (https://www.flickr.com/photos/93699963@N04/sets/72157632894352624/) mostrando como ele imagina a parte da frente de alguns álbuns clássicos do rock. É engraçado ver os desenhos como montagens de estúdio, além de outros enigmas remetendo às bandas e artistas.

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Criatividade, rock and roll!

 

Harvezt

O fotógrafo James Molison montou um projeto chamado Where Children Sleep, em que mostra como é o quarto de algumas crianças ao redor do mundo. Mais de que uma miscigenação cultural, as imagens provocam a reflexão a respeito do tratamento que tal geração recebe de pais e responsáveis (incluindo autoridades públicas). Algumas decorações podem não nos surpreender, mas vale a conferida.

Nepal_Indira_5727

Lesotho_Lehlohonolo_5

Israel_Tzvika_9562

Thailand_Lay-Lay_2172

Senegal_Syra_5849

UK_Rhiannon_5657

Brazil_Thais_71251

Com exceção da brasileira Thays, conseguem adivinhar quais os países das crianças fotografadas?

Já foi publicado por aqui vídeos com as melhores passagens dos anos de 1994, 1997 e 1999. Mas em 1997 – e no ano seguinte – foi seguido de vários lançamentos de peso no cinema, mas que foram meio ofuscados pelas trilhas sonoras que os acompanhavam. Segue abaixo algumas das (insuportáveis) músicas

– Will Smith: Men In Black (MIB 1997)

O primeiro filme da franquia mostrando relações meio amistosas entre seres humanos e alienígenas foi boa por trazer uma dupla com o carrancudo Tommy Lee Jones e o extrovertido Will Smith. O ator aproveitou para divulgar seu trabalho como rapper, com coreografias e tudo mais.

Refrão chiclete: “Here come the Men in Black” (no coral feminino)

– Jamiroquai: Deeper Underground (Godzilla 1997)

A versão americanizada do monstro japonês é totalmente esquecível (Roland Emmerich e sua mania de destruir Nova York). Mas no compilado de trilhas do filme tem boas pedidas, como a versão Heroes (Bowie) do Wallflowers, a mistura de P. Diddy e Jimmy Page e o cantor do chapéus inusitados Jamiroquai.

Refrão chiclete: “I’m going deeper underground” (com efeitos eletrônicos)

– Aerosmith: I don’t Wanna Miss a Thing (Armagedom 1998)

Na onda de ‘EUA x Corpos Celestes’, o diretor Michael Bay escalou um elenco de renome para o longa – Bruce Willis, Ben Affleck, Michael Clarke Duncan (In Memorian) e Billy Bob Thornton. Coincidindo com a descoberta do verdadeiro pai biológico de Liv Tyler, o Aerosmith fez uma das trilhas mais românticas e depressivas pra quem vai pro sacrifício.

Refrão chiclete: Don’t wanna close my eyes
I don’t wanna fall asleep
‘Cause I’d miss you, baby
And I don’t wanna miss a thing

– Goo Goo Dolls: Iris (Cidade dos Anjos 1998)

Meg Ryan fazendo par romântico com Nicolas Cage anjo(?), reflexão sobre religião e morte, a expressão insossa do protagonista (? de novo). Uma trilha fofinha e conquistadora viriam bem a calhar certo? acho que não!

Refrão chiclete: And I don’t want the world to see me
‘Cause I don’t think that they’d understand
When everything’s made to be broken
I just want you to know who I am

– Celine Dion: My Heart Will Go On (Titanic 1997)

Já na década passada Leonardo DiCaprio tinha um final infeliz, disputando um amor com Billy Zane e sendo genro de Kathy Bates (lol). Celine Dion veio com uma proposta de grudar o filme em nossas memórias e conseguiu, mesmo que sendo por mal

Refrão Chiclete: Near, far, wherever you are
I believe that the heart does go on
Once more, you open the door
And you’re here in my heart
And my heart will go on and on

A história começa assim…
No mais alto pico do Tibet vive o mais sábio homem do mundo.
Certa vez um rapaz foi à sua procura e perguntou-lhe:
– Mestre dos mestres! Qual o caminho mais curto e seguro para o coração de uma mulher?
O mestre respondeu-lhe:
– Não há caminho seguro para o coração de uma mulher, filho.
Só trilhas à beira de penhascos e caminhos sem mapas, cheios de pedras e serpentes venenosas..
– Mas, então, mestre… O que devo fazer para conquistar o coração da minha amada?
Então lhe disse o grande guru:
– Fazer uma mulher feliz é fácil.
– Só é necessário ser:
1) Amigo
2) Companheiro
3) Amante
4) Irmão
5) Pai
6) Chefe
7) Educador
Cozinheiro
9) Mecânico
10) Encanador
11) Decorador de Interiores
12) Estilista
13) Eletricista
14) Sexólogo
15) Ginecologista
16) Psicólogo
17) Psiquiatra
18) Terapeuta
19) Audaz
20) Simpático
21) Esportista
22) Carinhoso
23) Atento
24) Cavalheiro
25) Inteligente
26) Imaginativo
27) Criativo
28) Doce
29) Forte
30) Compreensivo
31) Tolerante
32) Prudente
33) Ambicioso
34) Capaz
35) Valente
36) Decidido
37) Confiável
38) Respeitador
39) Apaixonado
40) E, de preferência, RICO!!!
– Não cuspa no chão;
– Não coce o saco na frente dela;
– Não arrote alto. Aliás, não arrote;
– Dê flores e muitos.. Muitos presentes;
– Corte e limpe as unhas.. Não coma as unhas;
– Não peide sob o cobertor. Aliás, não peide.
– Levante a tampa do vaso antes de mijar.
– Deixe ela ter ciúme de você, ela pode;
– Use desodorante (que preste);
– Dê descarga depois de sair da privada;
– Não fale palavrão;
– Não seja engraçadinho com os outros;
– Não fale mal da mãe dela. Aliás, ame a mãe dela;
– Não tenha ciúme dela;
– Não fique barrigudo. Aliás, não engorde;
– Não demore no banho;
– Não chegue tarde em casa.
– Saia para trabalhar e volte correndo;
– Não beba até tarde com amigos. Aliás, não tenha amigos;
– Não seja pão-duro. Use pelo menos 2 cartões de crédito;
– Não diga que mulher não sabe dirigir;
– Não olhe para outras mulheres…. Aliás, não existem outras mulheres;
– Aprenda a cozinhar;
– Diga ‘eu te amo’ pelo menos 05 vezes por dia;
– Lave a louça;
– Ligue para ela, de qualquer lugar;
– Deixe ela conversar durante horas ao telefone;
– Não ronque;
– Não seja fanático por futebol;
– Faça a barba todos os dias para não arranhá- la;
– Nunca reclame de nada;
– Repare quando ela cortar o cabelo, mesmo que seja apenas as pontinhas, e diga sempre que ficou lindo…
E é muito importante ainda não esquecer as datas do seu: aniversário, noivado, casamento, formatura, menstruação, data do Primeiro beijo; aniversário da mãe, tia, irmão ou irmã mais querida; aniversário dos avós, da melhor amiga… E do gato
Infelizmente, o cumprimento de todas estas instruções não garante 100%
a felicidade dela, porque poderia sentir-se presa a uma vida de sufocante perfeição.
– E o mais importante, meu rapaz… Espere… Volte aqui…
NÃO… NÃO PULE… NÃO SE MATEEEEEEEEEEEEE!!!!

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‘1.
A ESQUERDA gosta de romantizar o povo. Exceto quando o povo é pouco romântico e expressa o que realmente pensa sobre o mundo.

Uma enquete do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) horrorizou algumas consciências “finas” com as opiniões do povo sobre a violência contra as mulheres.
Simplifico: dentro de casa, é feio bater. Mas, fora de casa, quando o crime é sexual, as mulheres têm culpa no cartório. Números: 65% dos brasileiros concordam que “mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”. Um aiatolá no Irã não diria melhor. E 58,5% consideram que “se as mulheres soubessem se comportar, haveria menos estupros”. Um aiatolá no Irã, idem.

É justo concluir que, para a maioria dos brasileiros, o ideal seria que as mulheres usassem burca. O clima brasileiro não permite essas mumificações? Isso não é desculpa. Quem aguenta o calor persa, também aguenta o calor tropical.

A pesquisa é interessante porque revela um dos problemas centrais da política moderna: como defender um regime democrático das “tiranias da maioria”?

Certo: a democracia pode ser o governo do povo, para o povo e pelo povo. Mas o que fazer quando o povo apoia a pena de morte, deseja perseguir homossexuais ou, no caso da pesquisa, tolera estupros contra mulheres de minissaia?

Eis o desafio que os pais fundadores dos Estados Unidos enfrentaram. E a resposta deles, contida nos “Federalist Papers” (uma coletânea de ensaios em defesa da ratificação da Constituição) continua válida, mais de 200 anos depois: a única forma de impedir o perigo das “facções” (um termo caro a James Madison) passa pela defesa de um sistema de governo representativo.

Que o mesmo é dizer: o povo não decide diretamente os assuntos da comunidade; o povo apenas elege os seus representantes para que sejam eles a filtrar a opinião da maioria, decidindo de acordo com um julgamento mais ponderado e informado.

Os herdeiros de Rousseau, que deploram a “democracia representativa” e têm orgasmos com a “democracia direta”, deveriam escutar mais vezes as aberrações que o povo defende.

2.
Um amigo viaja para São Paulo e pergunta-me se a cidade é segura. Digo que sim, apesar de já ter sido assaltado à mão armada no lobby de um hotel. “Foi um caso isolado nas duas dezenas de viagens que fiz pelo Brasil”, acrescento.

Ele fica mais descansado e depois, passando os olhos pelas notícias da internet, lê a história bizarra de uma cabeça humana encontrada junto da Sé. Cancelou a viagem.

Que exagero, meu Deus! Até porque existem coisas piores que uma cabeça cortada. Por exemplo, ter várias cabeças intactas, mas sem nada lá dentro.

Aconteceu com alunos da USP: um professor de geografia, André Martin, terá dito em plena aula que só as tropas brasileiras poderiam pôr ordem na “macacada” do Haiti.

Os alunos consideraram a palavra ofensiva: “macacada”, para eles, é um insulto racista aos haitianos. Para mim, que tenho dicionários em casa, “macacada” significa, no contexto da frase, “turba”, “multidão desgovernada”, “caos” etc.

Segundo “O Estado de S. Paulo”, o professor ainda tentou convencer a turma com esses sinônimos. A turma não se convenceu. O professor, em desespero de causa, terá então dito que “macacada” é o termo que o imperialismo americano usaria para intervir arrogantemente no Haiti. A turma não se comoveu com essa prova de esquerdismo do professor. Onde é que eu já vi isto?

Obviamente, em Philip Roth e no seu magistral “A Marca Humana”: Coleman Silk também é um professor que usa a palavra “spooks” (“assombrações”) para se referir a dois alunos negros que faltam sistematicamente às aulas (e que ele nem conhece). O problema é que “spooks” era o termo cruel com que os negros americanos eram tratados no tempo da segregação.
No livro, a carreira de Coleman é destruída pelos seus colegas universitários, que transformam uma palavra vulgar em ofensa invulgar.

Espero que o fim de André Martin não seja tão dramático. Mas este caso só confirma a regra. O problema do pensamento politicamente correto é funcionar como as antigas inquisições: encontrando heresias onde elas não existem; e queimando os hereges quando eles não merecem. ‘

(João Pereira Coutinho)

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