Sobre a vergonha de ser brasileiro

Posted: 03/03/2014 by sobziro in Momento Rage!, Palavras de quem sabe
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Não, nada de pachecagem, longe do ufanismo ou mesmo de qualquer pingo de ingenuidade. O Brasil realmente é um país complicado, com os mais sérios problemas estruturais, sociais, culturais, humanos, e tantos outros adjetivos possíveis. Pretendo esclarecer uma percepção que vem causando incômodo cada vez maior, proveniente da enxurrada de posts e comentários na rede de gente se declarando envergonhada de ser brasileiro. Às vésperas da Copa do Mundo, a expressão desse sentimento chega quase a virar clichê, sempre acompanhada de algum vídeo que mostra nossas mazelas, de alguma matéria que tenha saído na mídia estrangeira, de algum editorial do NY Times, sei lá. “Vergonha de ser brasileiro” é o mote do momento. A percepção que tive é a seguinte: o problema é que acreditamos que o Brasil mudou.

Resumindo o argumento (para depois destrinchar cada premissa), defendo que o sentimento vexatório tem origem na distorcida expectativa de vermos uma realidade de Brasil mudado que não mudou, ou mudou muito menos do que nos querem fazer acreditar por meio da propaganda oficial, da mídia convencional, que somos BRICS, quase primeiro mundo, uma pujança de desenvolvimento econômico, “Os olhos do mundo estão voltados para nós”, entre tantos outros chavões que podem ser sintetizados no slogan público mais bem sucedido dos últimos anos: “Orgulho de ser brasileiro”. É um conjunto discursivo irresistível, dentro do qual convivemos em nosso dia a dia. A verdade nos filmes, novelas, noticiários, conversas de bar, é de que os problemas que estamos vivendo são um absurdo que quase não tem coerência com os tempos atuais, com o Brasil que vivemos. Mas vamos por partes.

brasil

Cresci educado em uma escola cujas aulas de Geografia ensinavam que eu pertencia a um país de 3º mundo, junto com os países africanos (inclusive a África do Sul, na época), toda a América do Sul e Central e alguns países da Ásia (Paquistão, Índia, etc). As imagens dos livros mostravam crianças desnutridas, favelas, lixões, o sertão  nordestino. Falava-se em corrupção, problemas de dívida externa, inflação, mas o fundamental era o seguinte: eu me identificava com uma realidade pobre, a quilômetros de distância dos EUA e Europa, paraísos de desenvolvimento e dos misteriosos países comunistas, sobre os quais ainda pouco se sabia, de fato. Caso surgisse uma notícia ou artigo estrangeiro sobre as desgraças de minha terra, só podia concordar por ser fato constatado e esperado (não há resignação, mas constatação de um fato). Não havia hiato entre a realidade esperada, construída discursivamente (o que se diz a respeito do país), da que eu flagrava em meu cotidiano.

collor

A década de 90, com a estabilidade financeira do Real, a abertura de mercado para produtos estrangeiros, aliada ao barateamento (por conta da competitividade que a abertura proporcionou) de vários produtos de 1º mundo criou um cenário de transformação, dentro do qual ainda estamos. Vivemos ainda o difícil processo de transição de uma economia e mercado medievais, ou melhor, coloniais, para uma real inserção no globo, no modo de vida já há tantos anos usufruído em países do Hemisfério Norte.

Numa mistura de euforia ingênua com um complexo de inferioridade secular, um conjunto de discursos ufanistas começaram a ser produzidos, particularmente por agências de marketing, querendo associar marcas de produtos com a sensação de sucesso, progresso, crescimento. Não deveria ser difícil perceber que para qualquer corporação que precise vender produtos (sejam matérias-primas ou manufaturados) é necessário que se forme e estimule um mercado consumidor. Fazer-nos crer que estamos vivendo um momento glorioso de economia estável, distribuição de renda cada vez mais equitativa, desenvolvimento social e tecnológico foi a chave para que fizéssemos nossa parte no processo, temos um papel a exercer: consumir. E acreditamos, excitados com o novo status, a nova identidade mais vistosa.

Realmente temos (em todas as classes sociais) mais acesso à possibilidade de consumir, a roda do capitalismo foi acionada pela euforia das décadas de 90 e 00, empregos sobrando, mercado aquecido, o 2º mundo a ruir com o muro, a perestroika e a glasnost, e a conceituação geopolítica foi reformulada. Nada mais milagroso que mudar um conteito. A realidade toda se transforma. Deixamos de ser 3º mundo para nos tornarmos um país em desenvolvimento (óia!). Muito significativo, contribuiu deveras para nossa autoestima, à revelia da realidade ainda violenta, miserável, corrupta, politicamente ineficaz e desigual que nos cercava e ainda constituía.

Esse processo de mudança de status quo nacional vem sendo realizado progressivamente, cada vez mais bem aproveitado em campanhas políticas, agravado no lulismo (nosso Galvão Bueno da política). É um volume muito grande de boas notícias econômicas, para quem vinha de um regime militar, uma hiperinflação e um impeachment. Estabilidade e crescimento são (embora pífios) dados dignos de exaltação e de ressignificação de nossa identidade nacional. Somos um país em desenvolvimento, como torcedores (elemento constitutivo de nossa cultura), achamos que o Brasil vai ganhar, que já está na final, seremos campeões e viraremos, finalmente, 1º mundo (óia!).

Então “os olhos do mundo” realmente se voltam para nós, pois sediaremos 2 grandes eventos internacionais, estamos vendendo bem nosso peixe eufórico de quase desenvolvidos, e o que tais olhos vêm: praticamente o mesmo país de duas décadas atrás. Sabe quando um casal briga e os dois prometem mudar aquilo que tanto desagrada cada qual, faz-se um esforço enorme, cada um acha que mudou horrores, mas o outro continua achando que não foi alterado, que qualquer transformação foi pífia. Pois é assim. Para o olhar distante de nossas pequeninas e significativas mudanças, somos um local violento, repleto de administradores corruptos, com um abismo social africano, nível educacional risível, produção científica medíocre, tudo o que sempre se pensou a nosso respeito.

O artigo crítico é publicado e nossa euforia vira depressão profunda: que vergonha! Vergonha de não ser aquilo que acreditava ser! Vergonha da mentira na qual também acreditei.

De forma nenhuma defendo aqui que aceitemos a corrupção como algo irreversível, constituinte de nossa sociedade, que a desigualdade social não tem saída e devemos nos resignar e tal. Toda indignação, combustível que vem sendo usado nas manifestações cada vez mais comuns nas ruas das grandes cidades brasileiras, essa raiva é legítima. Talvez a percepção de que fomos enganados, a dura verdade de que nada mudou (ou pelo menos não tanto quanto nos quiseram fazer acreditar ao longo desses últimos 20 anos), seja a gota que transborda o copo. Gostamos de acreditar que somos desenvolvidos e notar que não somos pode levar a uma mudança realmente significativa (não ouso prever como, por que meio, nem quando).

Em meio à percepção desses fatos, ouvir alguém dizer que tem “orgulho de ser brasileiro” soa piegas, coxinha, alienado e ingênuo demais, mas parece ser fundamental perceber que expressar “vergonha de ser brasileiro” é tão ingênuo quanto, distante de se perceber parte de um processo histórico em andamento, lento, mas em um ponto nevrálgico. Depois de perceber isso, pensei em postar em meu status: “frustrado de perceber o quanto falta para vivermos o sonho de realidade que me venderam”.

(REX)

bunda

Rex é um Hotel em Marília onde o articulista descobriu seu alter ego. Ali, como divisor de águas, manifestou-se a mais emblemática face de quem sempre quis ser mais do que até então conseguira ser. Hoje, Rex só existe enquanto escreve.

Site de onde foi retirada a análise ‘tapa na cara’: http://semema.com/sobre-a-vergonha-de-ser-brasileiro/

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