Ele ainda está mal

Posted: 10/11/2013 by sobziro in Geral, Palavras de quem sabe
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‘Um senhor inglês de Manchester, chamado Steven, 54 anos, topete insistente sobre cabelos cada vez mais escassos, camisas justas comprimindo a barriga, é autor da maior prova de que as biografias não autorizadas deveriam não só ser permitidas, mas obrigatórias.

Steven, claro, é Steven Patrick Morrissey, vocalista e compositor da banda fundamental dos anos 80, os Smiths, dono também de uma carreira solo tumultuada, mas de enorme sucesso.

Cantou e compôs, como ninguém, as dores dos solitários, dos que sofrem de inaptidão para a vida.

Morrissey, esse seu nome artístico, também é conhecido pelas atitudes duras e por um temperamento impossível.

Mas não é bem esse o Morrissey que emerge de um livro recém-lançado nos países de língua inglesa, cujo nome já diz tudo: “Autobiography”.

Em uma sequência nem sempre conexa de eventos, “Autobiography” apresenta Morrissey como eterna vítima de desprezo e de complôs –dos colegas de banda, da Justiça, da imprensa, das gravadoras, de empresários incompetentes. Cada um desses, o autor pulveriza com brutal causticidade.

Sim, ele resolveu contar sua história. E, em nenhuma biografia recente, o pronome possessivo “sua” teve tanta força.

Não há divisão em capítulos, nem índice onomástico, nem preocupações cronológicas. Fica a impressão de que Morrissey sentou-se por alguns dias e escreveu a esmo sobre sua vida, conforme ia se lembrando.

Sabe-se lá com quais estratagemas, Morrissey conseguiu que o livro saísse pela coleção “Penguin Classics”, que, como o nome indica, dedica-se a grandes obras da filosofia e da literatura, de Aristóteles a Hannah Arendt, passando por Charles Dickens, Edgar Allan Poe e Primo Levi. Deve ser o único autor vivo da série.

Fruto de caprichos, instrumento para pequenas e grandes vendetas, “Autobiography” seria, então, uma obra desprezível? Longe disso.

Morrissey escreve tão bem, tem um domínio tão completo do ritmo da língua, do “turn of phrase”, como se diz em inglês, que “Autobiography” é uma leitura, na maior parte, agradável e iluminadora.

O maior obstáculo são as primeiras páginas, de lembranças da infância, com minúcias de dezenas de séries de TV por que ele era obcecado.

O livro melhora muito quando começa a falar de música. Ao abordar sua banda preferida, os punks “avant la lettre” New York Dolls, Morrissey produz análises ricas. “As canções dos Dolls tratam da vida acontecendo contra nós –nunca com ou para nós.” “Os Dolls eram o cortiço de todos os fracassos, não tinham nada a perder e mal conseguiam diferenciar entre noite e dia.”

David Bowie, outra de suas paixões, aparece muito. Desde quando Morrissey, aos 13 ou 14 anos, matava aula para acompanhar as passagens de som do ídolo, até o Morrissey já consagrado, que percebe a estratégia de Bowie de se aproximar de quem quer que esteja na moda e descreve o músico mais velho como alguém “que se alimenta do sangue de mamíferos vivos”.

Os Smiths são o foco da parte mais tediosa –ou mais reveladora, depende do referencial. É quando Morrissey remói o julgamento que o opôs a Mike Joyce, o baterista da banda. Nove anos depois da separação, Joyce decidiu reivindicar 25% dos direitos autorais, em vez dos 10% que ganhava.

Joyce venceu. A sentença do juiz John Weeks foi especialmente dura com Morrissey, chamado de “desonesto, truculento e indigno de confiança”.

Aconteceu em 1996, mas o autobiógrafo não engoliu até hoje. E gasta cerca de 15% de “Autobiography” em diatribes contra os outros ex-Smiths e o sistema judicial. Maldades literárias de alta qualidade, mas um teste da paciência para o leitor.

Já perto do fim, mais um impiedoso ritual de vingança. A vítima agora é Julie Burchill, romancista, jornalista, ex-crítica de música, conhecida pelo raciocínio rápido e pela acidez. Morrissey encontra seu igual. E pratica uma evisceração da oponente.

Julie, que está fazendo uma entrevista com o cantor, é chamada de “cabra velha”, e acusada de se vestir “como uma conselheira espiritual”.

E mais: “Deus interrompeu a formação correta de seu corpo”; “tem as pernas lamentáveis do fim da meia-idade”; “seu corpo nu provavelmente é capaz de matar plânctons marinhos no mar do Norte”.

Como se vê, Morrissey usou “Autobriography” para acertar contas com o mundo e seus tantos inimigos. Fez isso sem amarras, aparentemente sem um editor, com estilo, à sua maneira. “Auto”, sem dúvida. Mas biografia?’

(Álvaro Pereira Júnior)

Morrissey Autobiography

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Comentários
  1. Ted diz:

    Particularmente, não sou fã de biografias, gosto de relacionar-me com a música pelo que ela ela me oferece em questão de sonoridade e conteúdo lírico. Os bastidores da produção, as vivências do autor são quesitos interessantes, mas sei lá, no caso do Morrissey, o que nos chega pela mídia é de um cara chato, que se preocupa apenas com ele mesmo, mas idolatro a música do músico e compartilho os sentimentos. Pelo que li deste livro, é muito rancor a ser compartilhado, não me interessa. Gostaria, sim, de ler sobre as turnês, sobre o processo de composição, sobre o que ele sente por cada canção…

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