Eurocopa & Eurocrises

Posted: 13/06/2012 by sobziro in Eu acho que..., Geral, Palavras de quem sabe
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Futebol também é Geopolítica!

“1. Sempre gostei da Eurocopa. O futebol é um pormenor. As minhas razões são políticas. Gosto da Eurocopa porque ela é a expressão tangível (e bem ruidosa) da diversidade nacional europeia que nenhuma construção federal será capaz de suprimir.

Dias atrás, a chanceler Angela Merkel declarou em entrevista: a solução para os problemas do euro passa por mais “integração” dos países da zona do euro. Tradução: é necessária uma estrutura política federal, ou aparentada, com a Alemanha no topo e a Europa transformada numa união semelhante aos Estados Unidos da América.

Angela Merkel, claro, não lê a imprensa portuguesa. Se lesse, veria o que escreveram a respeito do jogo Alemanha x Portugal (que os portugueses, injustamente, perderam por 1 a 0). A retórica antigermânica era violenta, o que se entende: o país está sob resgate financeiro internacional, com a bênção punitiva da Alemanha.

Por isso o jogo não foi um jogo. Antes, o ajuste de contas entre o servo e o capataz. Infelizmente, ganhou o capataz.

Mas as rivalidades que a Eurocopa oferece não são apenas explicadas por crises econômicas momentâneas. Existem também memórias históricas que persistem em retornar à superfície.

Jogos como Polônia x Rússia ou França x Inglaterra são evocações fantasmagóricas de lutas seculares que deixaram a sua pegada arqueológica. Quando essas equipes se voltarem a enfrentar na Eurocopa, não será apenas de futebol que a mídia irá falar.

Que lições ensina a competição? Uma lição simples: nos Estados Unidos, os New York Yankees podem ter uma rivalidade conhecida com os Boston Red Sox. Mas, quando a hora do jogo se aproxima, o estádio enche-se de americanos, não de “new yorkers” ou de “bostonians”. E todos eles cantam o único hino que interessa -o hino de um país, forjado com o sangue da Guerra Civil.

Na Europa, não existe um único país; nem sequer, como pretendem os federalistas, diferentes “regiões” que podem fazer parte de um super Estado com capital em Bruxelas.

O que existe são nações múltiplas que, na hora do confronto desportivo, regressam a um sentimento primordial de pertença: a uma língua, uma cultura, uma identidade. Nações que, mesmo em tempos de paz, conservam ainda na memória afinidades comuns -ou aversões mútuas.

Não é por acaso que um jogo entre Portugal x Inglaterra (dois velhos aliados) nunca tem a carga “bélica” de um Portugal x Espanha.

Nas páginas finais das suas memórias, Jean Monnet, um dos pais fundadores da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, semente da atual União Europeia, escrevia: “A soberania das nações do passado não consegue mais resolver os problemas do presente: não consegue mais garantir a essas nações o progresso e controle do seu futuro. A Comunidade [Europeia do Carvão e do Aço] é apenas um estágio rumo ao novo mundo do futuro”.

Jean Monnet, manifestamente, nunca assistiu à Eurocopa.

2. A Espanha vai receber um empréstimo dos restantes países da zona do euro no valor de 100 bilhões de euros. Para recapitalizar o seu setor bancário exaurido. Tudo está bem quando acaba bem?

Longe disso. Um dos melhores estudos que li sobre a crise europeia pertence a Jay Shambaugh. Título: “The Euro’s Three Crisis”. Tese poderosa: a crise do euro é, na verdade, composta por três crises. Uma crise bancária, uma crise de endividamento e uma crise de crescimento. A Espanha tem as três em proporções avassaladoras. O que significa que resolver a primeira deixa as outras duas intactas.

Pior: de acordo com Jay Shambaugh, as três crises estão tão interligadas que mexer em apenas uma delas muitas vezes piora as restantes. A Irlanda tentou resolver a sua crise bancária -e agravou brutalmente a crise de endividamento. A Grécia tentou corrigir o endividamento com medidas de austeridade -e matou o crescimento.

Enfrentar a crise do euro, avisa Shambaugh, é enfrentar as três crises, não apenas usar remendos para uma delas.

Quem acredita que a Espanha resolve os seus problemas com 100 bilhões de euros para o setor bancário vai ter surpresas desagradáveis a curto prazo.” (João Pereira Coutinho)

Um Nero simbólico, que começou na Grécia e se alastrou pelo Velho Mundo

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