Eastwood, Seu Safadenho!

Posted: 05/02/2012 by sobziro in Uncategorized
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Clint Eastwood ganhou notoriedade com seus filmes de bang-bang, mas nos últimos 10 anos se destacou mais orientando subordinados atrás das lentes. E seu talento versátil em conduzir vai de temas literários (Sobre Meninos e Lobos) até histórias reais (Invictus, Carta de Iwo Jima), quebrando tabus (Menina de Ouro) ou mimetizando reflexões (Gran Torino, Além da Vida)

Porém o seu novo trabalho J. Edgar, com Leonardo DiCaprio interpretando o grande nome do FBI, gerou comentários controversos. Segue abaixo duas opiniões diversas, extraídas do caderno Ilustrada, da Folha de São Paulo.

Bonecas Perigosas (João Pereira Coutinho)

“As expectativas não eram elevadas. Um filme sobre o controverso J. Edgar Hoover, lendário diretor do FBI, escrito por Dustin Lance Black, o roteirista de “Milk”?

Mau presságio. Mesmo com Clint Eastwood ao leme, a pena panfletária de Black acabaria por fazer estragos.

Não me enganei. “J. Edgar” é, do ponto de vista cinematográfico, pobre, derivativo, às vezes paródico, sobretudo quando Leonardo Di Caprio, envelhecido por quilos de maquiagem, faz lembrar um boneco de cera do Madame Tussauds.

Mas o problema do filme não está apenas na estética; está na preguiça ética com que Black (e Eastwood) retrata o personagem.

O cinema de Clint Eastwood sempre foi exemplar pela forma adulta como o diretor filma os seus heróis e anti-heróis. Se os fanáticos preferem dilemas maniqueístas, Eastwood opta pelas zonas cinzentas da ambiguidade moral.

“Os Imperdoáveis”, filme elegíaco sobre o Velho Oeste, é o supremo exemplo da complexidade de
Eastwood: o pistoleiro William Munny pode ser um assassino a soldo com um longo e sanguinário passado; mas é também o derradeiro agente da justiça terrena. Sobretudo quando as instituições dos homens se mostram corruptas e imperfeitas.

Essa complexidade abrandou com o incompreensível “Invictus”: fascinado pela figura estimável de Nelson Mandela, Eastwood construiu um retrato hagiográfico e unidimensional de Mandela, tratado como uma espécie de madre Teresa da africanidade.

Que a personalidade de Mandela fosse mais contraditória do que o filme sugere (e a biografia “Conversas que Tive Comigo” mostrou-o há pouco), eis uma hipótese que não ocorreu ao deslumbrado Eastwood.
Como não ocorreu em “J. Edgar”. O filme, dizem as resenhas, é uma “biopic” de John Edgar Hoover.
Acontece que não é. O filme é apenas uma versão histérica dos rumores que abundam sobre ele.
Para começar, rumores sobre a sua vida privada: um homossexual reprimido, dominado pela mãe, que gostava de usar vestidos na intimidade e manteve relação secreta com o seu assistente, Clyde Tolson, até ao fim da vida.

Clint Eastwood compra cada um desses rumores, nenhum deles confirmáveis por fatos históricos. E não hesita em filmar Leonardo Di Caprio a experimentar em frente ao espelho um vestido da mãe morta. Difícil chegar tão baixo.

Essa sequência do vestido não é apenas um clichê narrativo escusado; será a base de todos os clichês posteriores, como se os vícios de Hoover brotassem da mesma fonte: sua relutância em sair do armário.
Se Hoover não fosse uma boneca enrustida, sugere Eastwood, não haveria chantagens sobre vários presidentes americanos de forma a conservar o seu poder; não haveria o uso indevido de informações confidenciais (e ilegais) para neutralizar os seus adversários; não haveria megalomania paranoica nas suas meditações autobiográficas.

E, claro, o seu “anticomunismo primário” daria lugar a uma espécie de tolerância multiculturalista “avant la lettre”. Se Hoover não fosse veado, ele e Al Capone até poderiam ter sido bons amigos.

Longe de mim sugerir que Hoover era um santo. Com a exceção de Nelson Mandela, ninguém é.
Sabemos hoje que Hoover alimentou hostilidade permanente contra os Kennedys motivada por feroz antipatia ideológica. E seu comportamento persecutório em relação a Martin Luther King, que o filme reduz a mero puritanismo sexual, ilustra só a incapacidade de Hoover em entender a importância de King na luta pelos direitos dos negros.

Mas também sabemos que o FBI se tornou um exemplo de investigação criminal único na época e no mundo; que Hoover foi implacável com as máfias organizadas que operavam durante a Grande Depressão; e que o seu “anticomunismo primário” talvez seja explicado pelo medo real de uma ideologia que produziu mais de 100 milhões de cadáveres no século 20.

Eastwood recusa a complexidade histórica que produziu Hoover. Prefere transformá-lo numa caricatura freudiana, obcecada com a sexualidade alheia e envergonhada com a homossexualidade própria.
Eis um caso irônico de como é possível fazer um filme-denúncia e ser mais papista que o Papa.”

O Lado Humano (Marcelo Coelho)

“J. Edgar Hoover era um monstro, e um dos méritos de Clint Eastwood, em seu filme sobre o chefão do FBI, foi o de não torná-lo menos monstruoso, mesmo depois que o espectador fica conhecendo melhor o “lado humano” do personagem.

Mentiroso, paranoico, chantagista, brutal -por algum milagre, todo esse acúmulo de coisas antipáticas consegue ganhar, não digo empatia, mas cumplicidade por parte do espectador do filme.
É que, como em tantas produções hollywoodianas, celebra-se acima de tudo a grandeza de uma pessoa que é boa no que faz.

O sujeito pode ser um policial assassino, um psiquiatra corrupto, um jogador de pôquer especializado em maltratar velhinhas. O que importa é que ele seja o mais esperto dos policiais, o mais brilhante dos psiquiatras, o melhor jogador de pôquer do Oeste -basta isso para o filme nos conquistar.

Eis então o jovem John Edgar Hoover (Leonardo DiCaprio) lutando com máxima convicção por uma causa correta: a unificação do arquivo de impressões digitais das polícias estaduais americanas.
A ideologia é o de menos: estamos torcendo pela vitória da competência sobre a incompetência.

Acresce o fato de que os primeiros passos de Hoover, na criação do moderno FBI, dirigiam-se na perseguição dos responsáveis por uma onda de atentados terroristas (alguém se lembrava disso?) nos Estados Unidos de 1919.

Muito do que se viu depois do 11 de Setembro já estava lá: desrespeito ou distorção das leis e dos princípios constitucionais, crônico risco de cometer-se injustiça contra inocentes. Não faz mal, parece dizer o filme, uma vez que os terroristas foram mesmo descobertos.

Não há nenhuma cena mostrando gente honesta sendo deportada, famílias chorando, pessoas apanhando sem razão.

Princípios constitucionais são coisa abstrata no filme, enquanto a luta de Hoover é concreta.
Em todo o caso, os sucessos iniciais do personagem são logo eclipsados pela intenção crítica do filme. Cada vez mais delirante e direitista, Hoover dedica mais tempo a investigar a vida pessoal de John Kennedy e Martin Luther King do que a prevenir o assassinato dos dois.

Ainda assim, parece dizer Clint Eastwood, perto do que seriam as investigações e chantagens tentadas pelo governo Nixon, a sordidez de Hoover merece algum desconto.

A estratégia do ruim contra o pior encontra paralelo na maquiagem do filme. Os atores coadjuvantes, quando envelhecem, estão com uma maquiagem tão ruim, e são tão capengas os sósias de Nixon e Bob Kennedy, que qualquer falha na caracterização de Leonardo DiCaprio como Hoover fica impossível de perceber.

Falta falar do “lado humano”. Com toda a sua violência implacável, Hoover ocultou durante toda a vida uma preferência homossexual.

Nada melhor para o surgimento de um bom detetive do que o fato de ele precisar muito esconder seus próprios segredos. Em “Sherlock Holmes: O Jogo de Sombras”, de Guy Ritchie, a velha suspeita de uma paixão entre Holmes e Watson é tratada com explícito deboche.

A exemplo da dupla Walter Matthau e Jack Lemmon em “A Primeira Página”, a união profissional faz tudo para estragar uma viagem de núpcias; mas aqui os indícios de homossexualidade se repetem tanto que a graça da coisa está em que ninguém precisa ser detetive para percebê-los.

Tudo leva a crer que, às voltas com a “decadência moral” de seu país, Hoover se tornou inteligente (e paranoico) graças ao esforço de negar o que via como decadente dentro de si mesmo.

No filme de Clint Eastwood, o personagem de Leonardo DiCaprio cita involuntariamente Oscar Wilde: “Matamos aquilo que mais amamos”. A frase se refere ao pessimamente levado caso de amor entre Hoover e seu ajudante, Clyde Tolson.

Mas poderia referir-se -e nisso “J. Edgar” não decepciona seus espectadores- ao próprio sistema político americano. Liberdade e democracia, de tanto esforço dos que queriam protegê-la de comunistas e terroristas, terminam ameaçadas o tempo todo.

É que seus defensores, muitas vezes, convivem com uma brutal ditadura da sexualidade dentro deles mesmos. Natural que descontem sua opressão interna nos coadjuvantes que tenham por perto -da secretária do escritório ao “paiseco” latino-americano mais próximo.

Quem sabe alguma “História Politicamente Correta da América Latina” pudesse ser escrita -sem a chatice que promete o título.”

Bang! Your Móda Foca!

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